31/01/2025

A Culpa dos Anjos – Capítulo 5 (31/01/2025)


novela de
João Daniel

CAPÍTULO 5:

No capítulo anterior...

Helena sente uma dor profunda e desmaia ao pressentir a morte da filha. Enquanto isso, André, desesperado, segura o corpo sem vida de Clara, recusando-se a aceitar a tragédia. José, em choque, foge da cena, negando sua culpa. A cidade se reúne, e André é acusado pelo povo, enquanto o corpo de Clara é levado ao necrotério. Ao despertar, Helena recebe a notícia devastadora e cai em desespero. As amigas de Clara tentam apoiar André, mas ele decide partir, sendo hostilizado pelos moradores.

Fique agora com o capítulo de hoje...

O silêncio na mansão dos Barros de Albuquerque é quase que ensurdecedor. Só se ouve os passos dos moradores e empregados e choramingos pelos cantos da casa. Com a morte de Clara, todos ficaram muito abalados. No seu quarto, Helena se arruma para ir ao velório e enterro de sua filha.

— Eu não me conformo, Janete. Não me conformo. Como pode minha filha, tão jovem, tão cheia de vida como é... Eu ainda não me acostumei a usar “era”, meu subconsciente se recusa a aceitar. Ai, como dói, como dói... — diz Helena, quase aos prantos.

— Oh, Dona Helena, eu também me recuso a acreditar. Tô sentindo um vazio tão grande no peito. Por mais que eu não era mãe ou tinha alguma ligação de sangue com a Clarinha, era como se tivesse, sabe? Uma ligação muito forte. Mas se esses foram os planos de Deus, só nos resta aceitar. — diz Janete, tentando se conformar.

— É, só Deus sabe das coisas mesmo. Vamos, Janete, eu não quero me atrasar.

— Vamos, patroa.

E assim as duas saem de casa em procissão à igreja matriz da cidade, sendo elas acompanhadas pela família e centenas de moradores. O velório foi marcado pelo pai de Clara, que chegará paras unir ao cortejo em homenagem à sua filha. Ele está muito arrasado, não se conforma em perder seu “pedacinho de céu”, que era como a chamava. Mesmo sendo um homem muito rigoroso e conservador, era muito carinhoso com sua família.

Chegando na igreja, Helena não aguentou, caiu em lágrimas ali mesmo ao ver o corpo de sua filha num caixão. Aquela situação para ela era um inferno, a pior que poderia acontecer em sua vida. E infelizmente aconteceu. Os irmãos de Clara também desataram a chorar, assim como Janete. Somente Rogério, o pai, não chorou. Mas estava completamente destruído por dentro.

Do lado de fora da igreja, em uma posição favorável à vista do caixão, estava José. O homem, por mais que tenha feito o que fez, ainda era obcecado por Clara. Não podia negar a si mesmo que estava arrasado. Ver Clara ali, morta, fez crescer um sentimento de culpa e arrependimento tão grandes que não aguentou mais ficar na igreja e saiu. Mais atrás do lugar em que José estava, se encontrava Dr. Luiz. Este, por fora, apenas dava um leve sorriso sem mostrar os dentes, mas por dentro estava tão eufórico em saber e ver que sua principal rival finalmente havia falecido. Por dentro também sabia que o motivo de sua euforia não era só esse. Tinha uma motivação muito maior para todo esse ódio. 

Quando o sinos da igreja tocaram anunciando que já eram seis horas da tarde, a procissão partiu para o cemitério. O pai de Clara e amigos da menina ajudaram a levar o caixão. Ao chegar no cemitério, o padre fez a cerimônia de enterro tradicional e, ao som de muitas pessoas se desabando em lágrimas, o caixão foi enterrado. Ali, Helena sentiu que um novo capítulo em sua vida havia começado. Um capítulo de muita dor, amargura, tristeza e sofrimento.

Vinte e quatro anos depois...

Rio de Janeiro, 2003.

Ao som de “Princípio, Meio e Fim” da cantora Camilla Araújo, vem surgindo a cidade do Rio de Janeiro em toda a sua formosura. Suas praias, seus belíssimos pontos turísticos. Enfim, o Rio. Num apartamento no Andaraí, está André. Após o ocorrido em Santa Esperança, decidiu sumir da cidadezinha. Veio tentar a vida no Rio, mas nunca se esqueceu do que ocorreu com Clara. Sua lembrança ainda era muito presente na memória, aparecendo com uma certa frequência nos sonhos de André. O mesmo está a se arrumar, acompanhado de seu amigo Cláudio, para uma roda de samba em Vila Isabel.

— Vamos que vamos, por que hoje tem sambinha, né não, Cláudio? — diz André, animado.

— Oh se tem meu amigo! Hoje eu passo o rodo naquela roda. Mas e você, Drezinho? Não pensa em reativar esse seu coração não? — pergunta Cláudio.

— Ah, amigo, desde que a Clara morreu acho que nunca mais senti nada de mais por ninguém. Era um amor forte, sabe? Desses de conexão de alma mesmo.

— Balela isso aí, quero ver se alguma gata não te fisga hoje.

— Vamos ver, Cláudio — diz André entre risos —, vamos ver.

Os dois saem de casa, animados. A noite parece prometer.

Já na roda de samba, o ambiente está muito animado. Pessoas estão se acabando em dançar, curtindo ali o som do lugar. Os dois chegam já chamando a atenção, André, por seu charme e beleza, e Cláudio, pela beleza e também seu carisma. Eles cumprimentam a todos os conhecidos e se sentam numa das mesas do local.

— Meu irmão... Você já viu o tanto de mulher gostosa que tem aqui? É hoje que eu me acabo, Jesus! — exclama Cláudio — Vou já começar a conhecer as moças, mas também se movimente, André. Vai caçar alguma formosura pra você.

— Eu prefiro ficar aqui admirando o ambiente Cláudio, acho melhor. — disse André soltando uma risadinha de leve.

— Se você diz, André, eu confio. Se divirta, hein?

André gesticula para seu amigo como se fosse um soldado cumprindo uma ordem. Minutos depois, avista uma linda mulher, de média estatura, cabelos escuros, dançando tão bem quanto uma rainha de bateria. André se encantou por ela assim que botou os olhos nela. Era a primeira vez que alguém lhe atraía assim nos últimos vinte e quatro anos. Não conseguia desgrudar os olhos da moça, que acabou percebendo e retribuindo os olhares, deixando André sem graça. Continuaram ali trocando olhares por um bom tempo, até que André teve coragem de ir conversar com a moça.

— Oi, você está linda hoje. — diz André envergonhado.

— Obrigada! — sorri a moça sem graça, mas encantada — Qual a sua graça?

— André, prazer. E qual o nome da bela moça?

— Sou Mariana, prazer. Mas não me chame de moça, não sou tão nova assim. 

— Você que manda, Mariana. Acho que vamos nos dar muito bem.

De volta à Santa Esperança, na mansão dos Barros de Albuquerque reina novamente o silêncio. Mas dessa vez não é pela morte de alguém da família, e sim porque já está tarde da noite. Em seu escritório, Helena está lendo um livro, mas já o fecha pois tem que dormir.

— Deixa eu marcar aqui... Pronto! Continuo amanhã.

Helena ouve batidas na porta de seu escritório e vai abrir, é Janete.

— Dona Helena, deixaram essa carta aqui pra senhora.

— Guarde-a, Janete. Leio amanhã, hoje estou cansadíssima.

— Mas aqui no envelope diz ser importante, acho que a senhora deveria abrir.

— Ai, tá bom, me convenceu. Deixe-me ler.

Helena pega a carta e a abre, quando lê o que estava escrito na carta, suas mãos começam a tremer e ela desmaia.

—Meu Deus, Dona Helena!

Na carta havia os dizeres, escritos por uma máquina de escrever: “Eu sei quem matou a sua filha”.

A imagem vai perdendo a cor aos poucos. Um anjo esvoaçante passa pela tela e após a sua passagem, tudo se escurece.

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