30/01/2025

Martinho de Porres - Capítulo 04 (Quarto Capítulo)

 

Martinho de Porres - Capítulo 04
(Quarto Capítulo)
Escrita por Lucas Gustavo
Faixa das 18h

**Cena 01 - Quarto de Martinho - Fim de Tarde**

*Martinho reza em um pequeno altar que há em seu quarto.*

**Cena 02 - Igreja - Cozinha - Manhã**

*A câmera abre mostrando Frei Barragán, varrendo o chão da igreja com expressão irritada. De repente, ele dá um grito, ao avistar um rato que corre pelo chão.*

**Frei Barragán:** Sai daqui, seu traste! Vá procurar outra igreja pra importunar! E vocês, seus miseráveis! Eu não aguento mais isso!

*Um gato miando entra na cena, o que só irrita mais Frei Barragán. Ele balança a vassoura para o gato, que pula para longe.*

**Frei Barragán:** E você, não vai fazer seu trabalho? Só fica aí olhando!

*Martinho, ouvindo a confusão, entra na igreja e observa a cena curioso.*

**Martinho:** Frei Barragán, o que é que está acontecendo aqui? Esse falatório todo é por causa de ratos?

**Frei Barragán:** Claro que sim, Martinho! Esses bichos não me deixam em paz, e ainda tenho que aguentar o gato preguiçoso!

**Martinho:** Os animais são criaturas divinas, Frei. Quando o homem estava no paraíso, vivia em harmonia com todas as criaturas. Mas o egoísmo humano nos afastou dessa paz.

**Frei Barragán:** Harmonia, harmonia... difícil falar disso com ratos se esgueirando por todos os lados!

**Martinho:** E esses xingamentos, Frei? Esse linguajar... florido. Onde foi que aprendeu?

*Frei Barragán, subitamente, para e suspira, como se fosse lembrado de um antigo segredo.*

**Frei Barragán:** Ah, Martinho, você não faz ideia dos meus tempos de marinheiro...

**Martinho:** Então o senhor nunca esqueceu o vai-vém das ondas, é?

*Frei Barragán sorri, tomando gosto pela lembrança.*

**Frei Barragán:** Certo dia, nosso barco foi misteriosamente guiado até uma ilha. Ali, viviam tartarugas gigantes. Ficamos presos naquele lugar por um ano inteiro, até que, finalmente, um navio enorme nos encontrou e nos resgatou. Foi então que decidi deixar o mar e ingressei na ordem, para me dedicar à vida religiosa.

**Martinho:** Que história incrível, Frei!

*Ambos sorriem, e Martinho retoma a tarefa de varrer junto ao frei, enquanto a cena se encerra com um clima de respeito e humor entre os dois.*

**Cena 03 - Convento - Escritório - Manhã**

*No escritório da igreja, estão Ana, dois freis, e Juan, o pai de Martinho. Ele encara, com raiva, um frei secretário, sua voz tensa e cheia de descontentamento.*

**Juan:** É uma vergonha ver o status do meu filho neste convento! Ele merece ser tratado com o mesmo respeito que qualquer outro aqui.

**Frei Secretário:** Existem regras, senhor. Pessoas de descendência indígena ou negra, mesmo da quarta geração, não possuem os mesmos privilégios de filhos legítimos de famílias brancas.

**Juan:** E o que me diz então? Martinho é meu filho, e isso não vai mudar. Vou regularizar sua situação como filho legítimo perante a lei, se isso resolver o problema.

**Frei Secretário:** A questão, senhor, não é apenas de legitimidade. A cor de Martinho ainda será um fator aos olhos de muitos aqui.

*Ana segura sua respiração, incomodada com a frieza do frei, enquanto Juan cerra os punhos, claramente irritado.*

**Juan:** Eu exijo falar com meu filho agora. Essa conversa ainda não terminou.

*O frei, relutante, assente com um olhar tenso. A cena se encerra com Juan encarando o frei, determinado a defender Martinho.*

**Cena 04 - Convento - Cozinha - Manhã**

*Na cozinha do convento, Martinho observa com um sorriso encantado enquanto o gato, o cachorro e o rato compartilham a mesma tigela de comida. Ele começa a refletir em voz alta, olhando para o teto com um tom de admiração.*

**Martinho:** Senhor, por que permites tantas diferenças no mundo? Perdão... não quero questionar, só... entender. A partir de hoje, serei o "cachorro mulato"!

*Com uma expressão divertida e, ao mesmo tempo, um toque de seriedade, Martinho se ajoelha e se coloca de quatro no chão, repetindo para si mesmo em um tom quase meditativo.*

**Martinho:** Cachorro mulato... cachorro mulato...

*Neste momento, Frei Barragán entra na cozinha, vê a cena com uma expressão de surpresa e depois repara nos animais comendo juntos. Ele se aproxima de Martinho, confuso, e o observa.*

**Frei Barragán:** Martinho? O que exatamente está acontecendo aqui?

**Martinho:** Eu? Ah, não... está tudo bem, Frei Barragán. Mas... precisa de algo?

**Frei Barragán:** Na verdade, sim. O Padre Prior pediu que você fosse até ele. Seu pai está aqui no convento.

*Martinho abre um largo sorriso ao ouvir a notícia e, com um brilho nos olhos, levanta-se rapidamente e sai correndo da cozinha em direção ao escritório do convento para encontrar seu pai.*

**Cena 05 - Convento - Escritório - Manhã**

*No escritório do convento, Martinho entra e, ao ver seu pai, Juan, não consegue conter a emoção. Ele o abraça com força, um sorriso largo e os olhos brilhando de felicidade.*

**Martinho:** Papai! Que bom ver o senhor!

**Juan:** Martinho, meu filho. E sobre Juana... Bem, casou-se com um crioulo. Está até pensando em tirar umas férias e vir para Lima.

*Martinho sorri ao ouvir as notícias sobre a irmã, mas rapidamente Juan muda de expressão e adota um tom mais sério.*

**Juan:** Agora, Martinho, vamos ao que interessa. Não me sinto bem vendo meu filho tratado apenas como um "doado" no convento. Você merece mais do que isso.

**Martinho:** Pai, eu não sinto vergonha. Não há problema em servir ao convento dessa forma.

**Juan:** Mas você é meu filho, Martinho! Seu status deveria refletir isso. Esse papel de doado não faz jus a você. Pense bem, meu filho... uma mudança de função seria melhor para você.

**Martinho:** Meu lugar aqui é servir, pai. Sou um escravo de Deus, não dos homens.

*Juan suspira, frustrado. Ele se exalta, mas Martinho mantém a serenidade e, em um tom solene, começa a falar com uma leveza profunda.*

**Martinho:** Ser humilde não é sinônimo de humilhação. A verdadeira nobreza está em reconhecer a humildade como um caminho, não como uma condição inferior.

*Juan, impressionado e orgulhoso, coloca a mão no ombro de Martinho, com um olhar misto de admiração e respeito.*

**Juan:** Você sempre me surpreende, Martinho.

*Ele então se volta para o padre, em tom mais resoluto.*

**Juan:** Padre, se meu filho insiste em servir, que ao menos tenha o respeito visual. Permita que ele use as mesmas vestes dos freis.

**Padre:** Na verdade, Juan, eu já vinha pensando nisso. Martinho merece essa honra não pelo status, mas pelos méritos e bondade que demonstrou aqui no convento.

*Martinho abaixa a cabeça em um gesto de humildade, enquanto seu pai e o padre o observam com orgulho, em um momento de profunda união e respeito.*

**Cena 06 - Convento - Noite**

*No convento, uma cerimônia emocionante acontece em um salão iluminado por velas. Os freis estão reunidos em um círculo ao redor de Martinho, que se encontra ajoelhado diante de um frei mais velho, com uma postura de reverência e humildade. O silêncio no ambiente é preenchido apenas pelo som suave do canto gregoriano ao fundo.*

**Frei Celebrante:** Martinho, diante de Deus e desta comunidade, perguntamos: o que você pede?

**Martinho**: (com a cabeça baixa, em tom humilde) Misericórdia.

*O frei faz um sinal da cruz sobre Martinho e sorri com benevolência.*

**Frei Celebrante**: Levante-se, então, Martinho, e receba o que o Senhor preparou para você.

*Martinho se levanta lentamente. O frei pega uma veste preta e branca, representando pureza e dedicação, e cuidadosamente a coloca sobre Martinho. Frei Barragán, afastado no fundo da sala, observa a cena com lágrimas discretas nos olhos, tocado pelo momento.*

**Frei Celebrante**: A partir de hoje, Martinho, como deseja ser chamado?

**Martinho**: (olhando nos olhos do frei, em tom simples) Apenas Martinho.

*O frei sorri e, com solenidade, toca o ombro de Martinho.*

Frei Celebrante: Não. A partir de agora, todos nós o chamaremos de Martinho de Porres.

*Martinho ergue o olhar para o alto, com uma expressão de gratidão e devoção. Ele une as mãos em oração e fala em um tom de profundo respeito e entrega.*

**Martinho**: Senhor, receba este humilde servo em seus braços.

*Os freis presentes respondem em coro, dizendo "Amém". Frei Barragán limpa discretamente uma lágrima enquanto observa Martinho, agora oficialmente reconhecido por sua dedicação, dar início a uma nova etapa de sua vida. A cena termina com Martinho sorrindo serenamente e o som do canto gregoriano se intensificando.*

**Cena 07 - Praça de Lima - Tarde**

*Uma movimentada praça em Lima. O sol brilha sobre os paralelepípedos, e os comerciantes gritam oferecendo seus produtos. Uma senhora idosa, de pele enrugada e sorriso caloroso, está atrás de uma pequena banca cheia de frutas frescas. Ela observa algumas jovens passando com roupas curtas e franzindo o rosto em reprovação.*

**Senhora**: (balançando a cabeça enquanto arruma as frutas) Esses tempos modernos… Jovens andando por aí com roupas que mal cobrem o corpo. Onde já se viu!

*Enquanto ela resmunga, Martinho aparece ao fundo, caminhando com calma pela praça, usando suas novas vestes pretas e brancas do convento. Ele atrai olhares de curiosidade e respeito. Ao vê-lo se aproximar, a senhora abre um largo sorriso.*

**Senhora**: (animada) Ah, Martinho! Que alegria vê-lo!

**Martinho**: (sorrindo humildemente) Bom dia, Dona Rosa.

**Rosa**: (olhando para as novas vestes dele) Olhe só para você! Que traje bonito! Ouvi dizer que foi renomeado no convento. Parabéns, meu filho! Você merece.

**Martinho**: (curvando levemente a cabeça em agradecimento) Obrigado, Dona Rosa. Mas não é mérito meu, e sim de Deus. Ele guia meus passos.

**Rosa**: (tocando a mão de Martinho com carinho) Que palavras bonitas. Você é uma bênção para essa cidade, meu filho.

*Martinho sorri e pega uma maçã da banca de Rosa 'Socorro Bonilla'.*

**Martinho**: Posso levar esta maçã?

**Senhora**: (acenando com a mão) Leve, leve! É presente para o nosso novo Martinho de Porres.

**Martinho**: (brincando, com um sorriso leve) Então que Deus a retribua em dobro, Dona Rosa.

*Ele se despede, caminhando novamente pela praça. A senhora o observa enquanto ele se afasta, ainda sorrindo com orgulho.*

**Cena 08 - Barbearia de Don Cayetano - Tarde**

(O ambiente é simples, com cadeiras de madeira e espelhos grandes nas paredes. Don Cayetano está cuidadosamente barbeando um cliente, mas comete um leve erro, fazendo um pequeno corte na bochecha do homem.)

Cliente: (reclamando) Ai! Você me cortou, homem!

Don Cayetano: (tentando acalmá-lo) É só um arranhão, meu amigo! Nada que um pouco de vinagre e sal não resolvam. Já volto!

(Don Cayetano caminha apressado até uma pequena prateleira, procurando os ingredientes. Enquanto ele está distraído, Martinho entra na barbearia, vestindo seu novo traje. Don Cayetano se vira e, ao ver Martinho, seus olhos se enchem de emoção.)

Don Cayetano: (largando tudo que tem nas mãos) Martinho! Olha só para você, meu rapaz! Que figura mais distinta!

Martinho: (sorrindo humildemente) Don Cayetano, que alegria vê-lo.

Don Cayetano: (se aproximando para cumprimentá-lo) Você está ainda mais impressionante com esse traje, meu amigo. Me faz lembrar dos tempos em que você estava aqui comigo, sempre tão prestativo.

Cliente: (impaciente) E o meu corte, Cayetano? Vai me deixar aqui sangrando?

Don Cayetano: (gesticulando sem paciência) Já vou, já vou! Tenha calma, homem!

Martinho: (rindo baixinho) Parece que algumas coisas nunca mudam.

Don Cayetano: Pois é, meu amigo. Sinto falta dos tempos em que você estava por aqui. Sempre foi uma grande ajuda.

Martinho: (sereno) Agora espero ser útil para muito mais pessoas, Don Cayetano. Meu caminho está nas mãos de Deus.

Don Cayetano: (tocando o ombro de Martinho) E você está fazendo o certo, meu rapaz. Mas nunca esqueça que aqui sempre terá um lugar para você.

Cliente: (interrompendo novamente) Cayetano!

Don Cayetano: (virando-se para o cliente com um sorriso forçado) Já estou indo, homem!

(Martinho se prepara para sair. Don Cayetano se despede com um tom emocionado.)

Don Cayetano: Vá em paz, Frei Martinho.

Martinho: (parando por um momento e sorrindo) Soa bem melhor assim.

(Martinho sai da barbearia, e Don Cayetano o observa pela porta, orgulhoso. Ele então se vira para o cliente com um suspiro, pegando o vinagre e o sal.)

Don Cayetano: Agora, vamos resolver esse seu corte, que parece pior do que realmente é.

**Cena 09 - Jardim de Lima - Tarde**

*O sol da tarde ilumina um belo jardim com flores de várias cores. Uma menina de vestido simples e sorriso encantador colhe rosas delicadamente, colocando-as em um cesto de vime. De repente, Martinho surge caminhando tranquilamente, com seus novos trajes. Ao vê-la, ele para e faz uma leve reverência.*

**Menina:** Mas o que é isso, senhor? Por que essa reverência?

**Martinho**: Porque senti que era necessário. O que vejo aqui são mãos que cuidam com carinho da criação divina.

**Menina:** Ora, o senhor é um homem curioso!

**Martinho:** Essas flores... são magníficas.

**Menina:** São rosas. As primeiras a brotarem em Lima nesta estação. Não são lindas?

**Martinho:** São, de fato, uma obra-prima da natureza.

**Menina:** Sabe... eu poderia lhe dar um rosário feito dessas flores. O que acha?

**Martinho:** Seria uma honra e uma alegria. E essas rosas não serão apenas um rosário, mas também plantarei algumas no jardim do convento.

**Menina:** Vai plantá-las?

**Martinho:** Sim. E prometo a você que aquele será o jardim mais lindo de toda Lima.

**Menina:** Tenho certeza de que será, Frei Martinho.

*Eles trocam olhares respeitosos, e Martinho pega algumas rosas do cesto com delicadeza. A menina o observa com admiração enquanto ele se despede com um leve aceno e caminha de volta ao convento, carregando as flores como se fossem um tesouro.*

**Cena 10 - Casa de Ana - Cozinha- Tarde**

*Juana 'Gleici Damasceno', vestindo um vestido simples e colorido, está organizando uma mesa. Martinho entra pela porta com um sorriso radiante. Assim que a vê, ele a agarra e a gira no ar, rindo com carinho.*

**Martinho:** Olhe só para você, Juana! O tempo fez maravilhas, hein? Você está tão bonita e... tão natural!

**Juana:** Pare, Martinho, vai me deixar tonta!

**Agustín:** Concordo com você, Martinho. Mas vamos lembrar que essa beleza toda é minha esposa, hein?

**Juana:** E você nunca perde a chance de dizer isso, não é?

**Ana:** Martinho, o pai continua mandando cartas e dinheiro.

**Martinho:** E você tem usado o dinheiro?

**Ana:** Não me importa o dinheiro. Mas ele está na metrópole, e às vezes penso que essas cartas são o único vínculo que ele sente conosco.

**Martinho:** Ele tenta do jeito dele, Ana. Talvez um dia possamos entender melhor.

**Juana:** E você, Martinho? O que anda fazendo?

**Martinho:** Vou visitar um amigo em um acampamento.

**Juana:** É longe?

**Martinho:** Quando o espírito viaja, minha irmã, nada é longe.

*Juana e Ana trocam olhares, admirando a sabedoria simples de Martinho. Agustín observa tudo em silêncio, mas com respeito. Martinho pega uma pequena sacola e se despede com um sorriso, deixando a casa cheia de amor e reflexão.*

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