Martinho de Porres - Capítulo 01 (Estréia)
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Faixa das Seis
Autor: Lucas Gustavo
(Não recomendado para menores de 12 anos)
Cena 01 - Casa - Manhã
*A cena se inicia em uma sala simples e bem iluminada, decorada com alguns objetos religiosos e flores. Um crucifixo de madeira pende na parede, e no centro da sala há uma pequena mesa com uma vela acesa. Dois homens estão sentados próximos, envolvidos em uma conversa profunda e respeitosa.*
**Homem 1:** Sabe, irmão, a cor de São Martinho de Porres é como a da glória divina. Não é à toa que ele é chamado de "O Santo da Caridade".
**Homem 2:** Como assim?
**Homem 1:** Veja… Martinho carregava em si a humildade e a bondade, como um reflexo da luz de Deus. Sua cor é um símbolo, um presente da criação. É como o abraço da própria terra, aquela que acolhe e gera a vida. É a mesma cor que resplandece na glória divina, pois nela se encontra a força do amor e da compaixão.
*A câmera, que até então os filmava de perfil, lentamente começa a se aproximar da pequena escultura de Martinho de Porres, focando na expressão serena e acolhedora da escultura. As feições são detalhadas, e o brilho suave da luz da vela toca seu rosto, destacando suas vestes e o terço pendurado em suas mãos.*
**Homem 1:** Martinho enxergava o mundo com os olhos de Deus, e cada gesto seu era um ato de amor, sem discriminar a quem servir ou acolher. Ele era o espelho da graça, uma alma cheia da luz do Criador.
*A câmera mantém o foco na escultura por mais alguns segundos, enquanto o som ambiente diminui, deixando o brilho da vela tremeluzir na figura do santo. A cena termina em silêncio, evocando um momento de reflexão.*
Corte para a próxima cena.
#### Cena 02 - Praça Maior de Lima - Fim de Manhã
*A cena se inicia na Praça Maior de Lima, 1588. O sol está alto, e uma multidão de fiéis e habitantes se reúne diante de uma escadaria, onde um funcionário da corte real se posiciona, erguendo um pergaminho dourado com o selo do vice-rei. O funcionário está vestido com roupas formais, simbolizando sua autoridade. O clima é tenso, a multidão aguarda com atenção as palavras que serão proferidas.*
**Funcionário da Corte:** Por ordem do vice-rei e da Santa Igreja, eu, aqui presente, declaro as novas regras para o serviço religioso nesta cidade de Lima, em honra aos costumes e tradições que exaltam a fé e a moral cristã!
*A multidão murmura, mas mantém o silêncio, aguardando o discurso. A câmera percorre os rostos dos presentes, revelando expressões de ansiedade e curiosidade.
Enquanto o funcionário continua a leitura, a câmera lentamente se desloca para a parte de trás da multidão, onde um menininho de pele negra, vestindo roupas humildes, aparece. Ele observa o evento com um olhar esperançoso, tentando se aproximar para ouvir melhor.
O menino dá pequenos passos para frente, cuidadosamente se esgueirando entre as pessoas. Porém, ao notar sua aproximação, um homem robusto, com traços de autoridade local, rapidamente se interpõe em seu caminho.*
**Homem Autoritário:** O que fazes aqui, garoto? Este lugar não é para ti!
*O homem empurra o menino com força, afastando-o da multidão. A câmera mostra o olhar do menino, que abaixa a cabeça, segurando o choro. Ele se afasta, caminhando lentamente, humilhado e abatido, enquanto a multidão se aglomera ainda mais ao redor do funcionário.
A câmera acompanha o menino se distanciando da praça, os sons do discurso se tornando cada vez mais baixos. De volta ao centro da praça, o funcionário ergue o pergaminho como um troféu, concluindo sua leitura.*
**Funcionário da Corte:** E assim, por ordem de Sua Excelência, serão honrados somente aqueles que se dedicarem plenamente à nossa fé e às tradições sagradas! Que Deus abençoe esta cidade e seus filhos!
*A multidão explode em aplausos e gritos de "Viva ao honorato religioso!", erguendo os braços e celebrando com entusiasmo. A câmera se move, registrando os rostos cheios de fervor e admiração.*
Cena 03 - Lugar Mais Afastado - Fim de Manhã
A cena corta para uma última imagem do menino, agora em um canto mais afastado, observando à distância. Ele enxuga discretamente uma lágrima, mas seu olhar é de uma tristeza profunda, carregando a marca de uma injustiça silenciosa.)
Corte para a próxima cena.
#### Cena 04 - Ruas de Lima - Fim de Manhã
*A cena se inicia em um mercado movimentado nas ruas de Lima. Vários vendedores ambulantes se espalham pelos cantos, exibindo suas mercadorias. Há uma mistura de aromas, de especiarias e comidas sendo preparadas, e o som constante de vozes negociando. Tapetes coloridos e roupas raras pendem de cordas improvisadas, chamando a atenção dos turistas que passam. A câmera acompanha Martinho, caminhando de forma tranquila e curiosa por entre os vendedores.
Martinho passa por uma banca onde uma senhora idosa vende uma coleção rara de tapeçaria de roupas finas, elegantemente decoradas com bordados e tecidos brilhantes. Enquanto ele observa as peças, uma senhora elegante e vestida de forma requintada chega carregada por quatro empregados.*
**Senhora Elegante:** Diga-me, senhora, quanto custa cada uma dessas peças?
**Vendedora Idosa:** Dois reais cada peça, minha senhora.
**Senhora Elegante:** (com um ar de irritação, levantando uma sobrancelha com desdém) Dois reais?! Você aumenta esses preços a cada dia, não é? Desse jeito, vai acabar com essas tapeçarias encalhadas para sempre.
**Vendedora Idosa:** Minha senhora, esses preços refletem o trabalho e a qualidade das peças…
**Senhora Elegante:** Vá catar coquinho, mulher!
*Os empregados levantam a liteira e seguem adiante, enquanto a vendedora idosa permanece em silêncio, tentando disfarçar a humilhação. Martinho olha para a vendedora com empatia, mas continua caminhando.
A câmera mostra Martinho se aproximando de um homem robusto que segura um porco pela corda. O animal se debate levemente, assustado com o barulho e a multidão.*
**Martinho:** O que vai fazer com ele, senhor?
**Homem com o Porco:** O que acha, moleque? Vou matar, é claro! Nunca comeu um porco, não?
*Martinho recua um pouco, sem resposta, e desvia o olhar do homem, perturbado com a frieza da resposta. Ele segue andando e vê um homem com uma criança pequena no colo, visivelmente frágil e tremendo de frio.*
**Martinho:** Ele está doente, senhor?
**Homem com o Menino:** Sim… O inverno tem sido cruel, e ele pegou um resfriado forte.
*Martinho olha para sua própria roupa simples, mas quente, e a tira sem hesitar, oferecendo-a ao homem para cobrir o menino.*
**Martinho:** Tome, senhor. Ele precisa mais disso do que eu.
**Homem com o Menino:** Deus te abençoe, jovem. Como você se chama?
**Martinho:** Martinho.
**Homem com o Menino:** Meu nome é Tupán. Nunca vou esquecer o que você fez por nós, Martinho.
**Martinho:** Seu nome é cristão, senhor?
**Tupán:** Não, Martinho. É indígena. É o nome de meus ancestrais.
**Martinho:** É um belo nome, senhor Tupán.
**Tupán:** E o seu nome, jovem Martinho, é um nome que levarei comigo para sempre. Deus o proteja.
*A cena termina com Martinho sorrindo levemente e acenando antes de se afastar pelo mercado. Tupán observa Martinho partir, com um olhar de gratidão sincera.*
Corte para a próxima cena.
#### Cena 05 - Praia - Tarde
*A câmera abre para uma praia em Lima. A areia quente e a brisa salina contrastam com a cena brutal que se desenrola. Várias celas de madeira estão dispostas em fileiras, com pessoas negras trancafiadas dentro delas. Algumas famílias estão separadas, e a atmosfera é tensa e desoladora. Homens bem vestidos caminham de um lado para o outro, observando os prisioneiros. Um leiloeiro se posiciona em um tablado improvisado, anunciando os valores com uma voz autoritária.*
**Leiloeiro:** Vamos começar o leilão! Começamos com um jovem forte, acostumado ao trabalho pesado. O preço inicial é 50 reais! Quem dá mais?
*A câmera mostra rostos diferentes, alguns compradores de aparência altiva e outros disfarçando a avidez pelo comércio. De repente, um homem levanta a mão.*
**Primeiro Comprador:** Eu dou 60 reais!
*O leiloeiro sorri satisfeito e continua.*
**Leiloeiro:** Sessenta reais! Quem dá mais?
**Segundo Comprador:** Cem reais!
**Terceiro Comprador:** Cento e cinquenta reais!
**Leiloeiro:** Cento e cinquenta reais! Vendido!
*Os prisioneiros olham com olhos vazios, e a câmera capta suas expressões de resignação e medo. O leiloeiro traz então uma mulher para o centro do tablado.*
**Leiloeiro:** Agora temos uma mulher forte e ágil. Começamos por 25 reais!
*Um homem na multidão levanta a mão.*
**Comprador de Roupas Modestas:** Eu ofereço 30 reais!
*O leiloeiro olha ao redor, esperando mais lances.*
**Leiloeiro:** Trinta reais! Alguém dá mais? Esta é uma oportunidade única!
*De repente, uma mulher branca e elegante, acompanhada por empregados, levanta a mão.*
**Mulher Elegante:** Cinquenta reais.
**Leiloeiro:** Cinquenta reais! Vendido!
*A mulher sorri de forma fria e se afasta com seus empregados. A câmera revela Martinho, observando toda a cena com tristeza, incapaz de entender completamente, mas sentindo o peso daquela injustiça. Ele se afasta um pouco, mas é surpreendido por um pescador local, de aparência rude e envelhecida.*
**Pescador Horrendo:** O que fazes por aqui, moleque?
*Enquanto Martinho se debate, um menino branco oportunista se aproxima furtivamente e rouba a cesta de comida que Martinho carregava.*
**Martinho:** Por favor, senhor, essa comida era para minha casa!
*O pescador, sem se importar com o apelo do menino, levanta-o no colo, exibindo-o como uma mercadoria.*
**Pescador Horrendo:**Vendo este garoto por 20 reais! Quem se interessa?
*A multidão ri e murmura, alguns homens olham para Martinho com curiosidade, mas não fazem nada. Entre os espectadores, um padre conhecido de Martinho observa a cena e fica chocado. Ele é um homem de expressão severa, mas com um ar de autoridade religiosa.*
**Padre:** Solte-o agora, velho caquético de Satanás!
*A multidão ri do comentário do padre, e o pescador o encara com um sorriso malicioso.*
**Pescador Horrendo:** O quê, padre? Esse moleque é seu filho, por acaso?
*Mais risos da multidão. O padre, agora com o rosto corado de raiva, avança alguns passos.*
**Padre:** Solte o menino!
*O pescador, percebendo a seriedade do padre, relutantemente coloca Martinho de volta no chão.*
**Martinho:** Roubaram minha cesta e meu dinheiro!
*O padre olha para Martinho, visivelmente irritado pela confusão e pela situação que o menino se meteu.*
**Padre:** Saia daqui agora, Martinho!
*Martinho, assustado e confuso, abaixa a cabeça e corre, afastando-se da multidão. A câmera o acompanha enquanto ele corre, desaparecendo entre as ruas estreitas e deixando o padre para trás.*
Corte para a próxima cena.
Cena 06 - Rua - Tarde
*Martinho anda pelas ruas estreitas de Lima até sua casa.*
Cena 07 - Casa de Martinho - Tarde
*A porta de madeira range ao ser empurrada. Dentro, Ana 'Eli Ferreira', sua mãe, está preparando o pouco que tem para o jantar. Ela percebe a ausência de comida na cesta de Martinho e sua expressão muda para preocupação*
**Ana:** Martinho, por que a cesta está vazia? O que aconteceu?
*Martinho olha para o chão, hesitante. Então, ergue os olhos para sua mãe, tentando acalmá-la.*
**Martinho:** Não se preocupe, mãe. Há pessoas que precisam mais do que nós.
*Ana suspira, tentando entender, mas logo percebe que algo mais está perturbando seu filho.*
**Ana:** E por que você está assim? O que você viu hoje?
*Martinho hesita, mas então encontra coragem para contar.*
**Martinho:** Na praia... vi pessoas negras sendo vendidas, sendo tratadas como se fossem... nada. Por quê, mãe? Por que fazem isso?
*Ana respira fundo, lutando contra a dor que sente ao ouvir a pergunta do filho. Ela se aproxima e coloca a mão em seu ombro.*
**Ana:** Isso acontece por causa das leis dos homens, Martinho. A lei deles pode ser cruel, às vezes.
*Martinho, confuso e determinado, encara sua mãe com os olhos cheios de uma inocência teimosa.*
**Martinho:** Mas, mãe... não é Deus quem faz as regras?
*Ana sorri com tristeza e acaricia o rosto de Martinho.*
**Ana:** Quando você crescer, vai entender melhor, meu filho.
*De repente, ouvem passos na entrada. Juan 'Rômulo Arantes Neto', o pai de Martinho, entra em casa após uma longa viagem de negócios. Ele é um homem de porte firme, com um olhar sério. Ao ver Ana e Martinho, seus olhos se iluminam um pouco.*
**Juan:** Estou de volta!
*Ana se aproxima para abraçar o marido, enquanto Martinho hesita. Juana, sua irmã mais nova, corre animada para o pai.*
**Juana:** Papai!
*Juan se abaixa e abraça Juana com afeto. Ele então olha para Martinho, esperando o mesmo entusiasmo, mas percebe a expressão reservada do filho.*
**Juan:** E você, Martinho? Não vai cumprimentar seu pai?
*Martinho, mesmo relutante, caminha até o pai e o cumprimenta com um aperto de mão formal. Juan balança a cabeça e decide aliviar a tensão.*
**Juan:** Trouxe presentes para vocês! Juana, para você, uma boneca da cidade!
*Juana pega a boneca e sorri radiante. Juan então olha para Martinho e lhe entrega um pequeno rosário de madeira.*
**Juan:** E para você, Martinho, um rosário abençoado. Guarde-o com cuidado.
*Martinho pega o presente com gratidão silenciosa. Juan então se volta para ambos os filhos.*
**Juan:** Agora, vão brincar no quintal. Sua mãe e eu precisamos conversar.
*Juana e Martinho obedecem e saem do cômodo. Juan se vira para Ana, que o observa ansiosa.*
**Ana:** E então? Como foi sua viagem?
*Juan se senta, parecendo satisfeito.*
**Juan:** As coisas correram bem. Em breve, vou me tornar um funcionário importante no Panamá.
*Ana sorri, mas sua expressão é de uma felicidade inquieta.*
**Ana:** Isso é bom... mas de que adianta se você não pode levar sua família?
*Juan se mexe desconfortavelmente na cadeira, evitando o olhar de Ana.*
**Juan:** Eu preciso me comportar conforme as exigências da câmara, Ana. Você sabe disso.
*Ana respira fundo, tentando conter a frustração.*
**Ana:** Mas, Juan, nós não somos o que a câmara espera.
*Juan hesita antes de revelar seu plano.*
**Juan**: Estive pensando... talvez possamos levar Juana para morar com meu amigo em Guayaquil. Ele e a esposa não têm filhos, e dariam uma boa educação a ela.
*Ana fica atônita com a sugestão e imediatamente desafia o marido.*
**Ana:** E Martinho? Você pensou nele, Juan? Ou vai simplesmente rejeitá-lo por ser negro?
*Juan fica em silêncio por um momento, tentando formular uma resposta adequada.*
**Juan:** Ana, você está me interpretando errado. Pensei em Martinho também.
**Ana:** Então, qual é o seu plano?
**Juan:** Vou arranjar um emprego para ele. Meu amigo Mateus tem uma barbearia. Martinho pode aprender o ofício lá. Ele terá um futuro.
*Ana observa o marido com os olhos marejados. Ambos ficam em silêncio por um momento, absorvendo a conversa. Juan então se aproxima dela e a abraça.*
**Juan:** Eu prometo que Martinho não ficará sem um caminho, Ana. Confie em mim.
*Ana retribui o abraço, mas ainda tem dúvidas em seu coração. A câmera se afasta lentamente, mostrando o casal abraçado em meio à casa modesta, enquanto do lado de fora, Martinho observa o cair da noite sobre Lima.*
Corte para a próxima cena.
Cena 08 - Barbearia - Manhã
*A câmera se abre em uma barbearia simples, com móveis de madeira e uma atmosfera modesta, mas acolhedora. Martinho está varrendo o chão com cuidado, quando seu pé acidentalmente bate em um rato, que se assusta e corre para um buraco na parede. Martinho se abaixa, observando o buraco com curiosidade.*
**Martinho:** Você está com fome, ratinho? Queria te dar um pedaço de pão, mas se o Don Cayetano ver, vai brigar comigo.
*Enquanto ele fala com o rato, a porta da barbearia se abre, e Don Cayetano entra acompanhado de um senhor idoso. Ambos estão conversando sobre o cenário político da região.*
**Don Cayetano:** Bom dia, Martinho. Está trabalhando duro, como sempre?
**Martinho:** Sim, senhor.
*O idoso se senta em uma das poltronas de couro envelhecido, ajeitando-se para fazer a barba. Don Cayetano continua sua conversa casual.*
**Idoso:** Parece que o Vireinado de Lima está em uma situação delicada com essas novas ordens da metrópole. Não sei o que vai ser de nós.
**Don Cayetano:** São tempos difíceis, meu amigo. O povo não aguenta mais as pressões da coroa. Mas, enquanto isso, aqui na barbearia, nós cuidamos dos problemas mais imediatos, certo?
*De repente, um homem entra na barbearia, visivelmente aflito, gemendo de dor e com o rosto contorcido.*
**Homem Aflito:** Ai... estou com muita dor... não aguento mais!
*Don Cayetano imediatamente se volta para o homem aflito, e com um gesto para o idoso, explica com um tom pragmático.*
**Don Cayetano:** Aqui na minha barbearia, aqueles com pelos encravados têm prioridade. Você me entende, não é?
*O idoso acena com compreensão e sai da poltrona, dando espaço ao homem aflito, que se senta com dificuldade.*
**Don Cayetano:** (para Martinho) Martinho, pegue as ferramentas de cortar cabelo para mim.
*Martinho, tentando ser rápido e eficiente, vai até a prateleira e busca as ferramentas de cortar cabelo. Quando retorna, o homem aflito olha para as ferramentas e seus olhos se arregalam de medo.*
**Homem Aflito:** (apavorado) O que é isso? Eu não quero ver!
*Don Cayetano, percebendo o nervosismo do cliente, tenta acalmá-lo com uma abordagem prática.*
**Don Cayetano:** Não se preocupe, vou poupá-lo dessa visão. Vou colocar esta faixa nos seus olhos. Assim, não verá nada.
*Ele amarra uma faixa ao redor dos olhos do homem, cobrindo-os. Don Cayetano então se vira para Martinho, que ainda está segurando as ferramentas.*
**Don Cayetano:** Martinho, agache-se e segure as pernas dele com firmeza.
*Martinho, ainda confuso, faz como foi instruído e se agacha, segurando as pernas do homem. Don Cayetano pega um alicate, ajustando-o para o procedimento.*
**Don Cayetano:** Vou tirar esse pelo encravado, senhor. Respire fundo.
*O homem começa a tremer de ansiedade enquanto Don Cayetano se prepara para o procedimento. Lentamente, ele aproxima o alicate da área sensível próxima ao nariz do homem. Com um gesto rápido, Don Cayetano tenta puxar o pelo, mas o homem geme alto de dor.*
**Homem Aflito:** (gritando de dor) Aaaah! Isso dói demais!
*Martinho, assustado com o grito, se contorce, e ao ouvir o homem levantar as pernas involuntariamente, ele perde o equilíbrio. Com um movimento desajeitado, Martinho dá uma pirueta e cai desajeitadamente no colo do homem.*
**Don Cayetano:** Pelos céus, Martinho! Levante-se!
*Martinho, envergonhado, se levanta rapidamente, tentando se recompor, enquanto o homem aflito tira a faixa dos olhos, ainda com o rosto contorcido de dor.*
**Homem Aflito:** Isso foi... terrível. Mas... estou melhor, eu acho.
*Don Cayetano:* (com um sorriso contido) Aqui resolvemos os problemas mais complicados, não é mesmo?
(Martinho tenta esconder seu embaraço enquanto continua varrendo, e Don Cayetano e o idoso retomam sua conversa política, como se nada tivesse acontecido.)
Corte para a próxima cena.
Cena 09 - Igreja - Tarde
*A câmera abre em uma pequena igreja, com bancos de madeira e uma atmosfera de serenidade. Martinho está ajoelhado diante do altar, de olhos fechados e mãos juntas, em oração. Há um silêncio reverente no local, quebrado apenas pelo som das velas crepitando e pelo eco das orações em voz baixa.
Após terminar sua oração, Martinho se levanta lentamente e se prepara para sair, mas é interceptado pelo padre, que o observa com um olhar firme e preocupado.*
**Padre:** Martinho, já te disse muitas vezes para não dar esmola para a igreja. Por que continua fazendo isso?
*Martinho abaixa a cabeça, tentando encontrar as palavras certas.*
**Martinho:** Padre, eu arrumei esse dinheiro trabalhando... lá na barbearia de Don Cayetano e no boteco de Mateo Pastor.
*O padre observa Martinho em silêncio, claramente ponderando as palavras do menino.*
**Padre:** E por que continua ajudando a igreja, Martinho? De onde veio essa ideia?
*Martinho ergue os olhos, encarando o padre com convicção.*
**Martinho:** Porque eu sei que a igreja está passando por um momento difícil, senhor. E se a igreja é importante para nossa fé e para a cidade, por que eu não deveria ajudar?
*O padre olha para Martinho por um momento, surpreso com a resposta direta e sincera do menino. O olhar firme do padre começa a suavizar, e ele dá um passo à frente.*
**Padre:** Você... você é um menino de grande coração, Martinho.
*O padre, sem dizer mais nada, se aproxima e abraça Martinho de forma emocionada. O gesto é ao mesmo tempo de gratidão e proteção. Martinho, inicialmente surpreso, devolve o abraço com ternura, sentindo o calor da aprovação. Após um momento de silêncio, o padre se afasta um pouco e olha para Martinho com um sorriso fraco, mas sincero.*
**Padre:** Que Deus te abençoe, Martinho. Você é um raio de luz em tempos sombrios.
*Martinho sorri timidamente, sem saber ao certo como responder a tamanha demonstração de afeto.*
**Martinho:** Obrigado, padre.
*O padre faz um sinal da cruz sobre Martinho e o solta, dando um passo para trás.*
**Padre:** Vá em paz, meu filho. E lembre-se, sua fé é seu maior tesouro.
*Martinho acena com a cabeça e sai da igreja em silêncio, deixando o padre observando-o partir, ainda emocionado e reflexivo. A cena se encerra com um foco no altar, onde uma vela brilha com intensidade.*
Corte para a próxima cena.
Cena 10 - Casa de Martinho - Manhã
*A cena se abre na casa de Ana e Martinho, um pequeno ambiente simples, com móveis rústicos e uma janela aberta permitindo a entrada de luz natural. Sentados ao redor de uma mesa de madeira, estão Ana, Martinho, um pastor de aparência serena e Dona Francisca 'Cristiana Ubach', uma senhora de semblante gentil e um sorriso acolhedor. O pastor segura uma carta em suas mãos e lê em voz alta, enquanto Ana e Martinho ouvem atentamente.*
**Pastor:** “Queridos mamãe e Martinho, estou bem aqui em Guayaquil. Estou estudando bastante, mas a saudade de vocês é grande, e às vezes me sinto sozinha. Espero vê-los logo.”
*Ana suspira ao ouvir as palavras da filha, seus olhos marejam de saudade.*
**Ana:** A nossa Juana...
**Martinho:** Nós também sentimos muito a sua falta.
*O pastor dobra a carta com cuidado e a coloca sobre a mesa, enquanto Dona Francisca observa a cena com compreensão.*
**Pastor:** Ela está se saindo muito bem, Ana. Está crescendo e aprendendo. Mas a saudade de vocês pesa.
*Ana enxuga uma lágrima discreta e força um sorriso, tentando mostrar força.*
**Ana:** Eu sei... pelo menos sabemos que ela está sendo bem cuidada.
**Dona Francisca:** Ana, na carta, Juana também mencionou que queria que vocês soubessem que ela está orgulhosa de Martinho. Ela mandou uma pequena quantia de dinheiro, e eu trouxe comigo.
*Ela entrega um pequeno envelope a Ana, que o pega com gratidão.*
**Ana:** Obrigada, Dona Francisca. Com esse dinheiro, eu consegui comprar um traje novo para Martinho usar no catecismo da igreja.
*Dona Francisca sorri e se vira para Martinho.*
**Dona Francisca:** E em que ocasião especial você vai vestir esse traje, Martinho?
*Martinho, com um brilho de entusiasmo nos olhos, responde prontamente.*
**Martinho:** Vou vesti-lo no Sábado de Glória, dona Francisca. Será um dia muito especial.
*O pastor e Dona Francisca sorriem, aprovando a resposta do menino.*
**Pastor:** Você está se saindo muito bem, Martinho. Continue assim.
*Martinho faz um aceno respeitoso com a cabeça e se prepara para sair.*
**Martinho:** Posso voltar a trabalhar?
**Pastor:** Sim, Martinho, pode ir.
*Antes de sair, Martinho se vira para Dona Francisca com um ar esperançoso.*
**Martinho:** Dona Francisca, a senhora trouxe o jogo de velas que eu pedi?
*Dona Francisca fica surpresa, mas logo abre sua bolsa e tira um pequeno jogo de velas, entregando-o a Martinho.*
**Dona Francisca:** Sim, meu querido. Aqui está.
*Martinho sorri amplamente, pega as velas com cuidado e sai do cômodo, indo continuar suas tarefas. Quando ele se afasta, Ana olha para Dona Francisca com uma expressão preocupada e confusa.*
**Ana:** Mas... por que ele pediu essas velas?
*Dona Francisca dá de ombros, levantando ligeiramente as mãos em um gesto de incerteza.*
**Dona Francisca:** Não faço ideia, Ana. Talvez seja para alguma oração especial.
*Ana fica pensativa, olhando para o corredor por onde Martinho saiu, claramente intrigada com a atitude do filho.*
*A câmera faz um zoom-out suave, deixando a sala em um clima de leve mistério. A câmera congela no rosto intrigado de Ana com linhas amarelas suaves aparecendo na tela entrelaçando o rosto dela, e uma cruz fazendo a transição pro encerramento*

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