28/01/2025

Martinho de Porres - Capítulo 02 (Segundo Capítulo)

 

Martinho de Porres - Capítulo 02 (Segundo Capítulo)

Web Novela
Faixa das Seis
Autor: Lucas Gustavo

(Não recomendado para menores de 12 anos)

Cena 01 (Casa de Martinho/Pequeno cômodo com Altar/Fim de Manhã)

(A câmera mostra Ana abrindo a cortina que abre passagem para o cômodo. E vê o filho rezando com a vela para uma santa que há no altar. A mulher se orgulha do filho.)

Cena 02 (Igreja/Tarde)

(A cena começa dentro de uma igreja antiga, cheia de ornamentos religiosos e iluminada por luzes suaves que entram pelos vitrais. O ambiente está em um silêncio solene. Crianças vestidas com trajes brancos para o catecismo estão sentadas em fileiras, esperando pela confirmação. Ao fundo, em um banco mais afastado, estão Martinho e sua mãe, Ana, vestidos de forma simples, aguardando sua vez.

Martinho está visivelmente inquieto. Ele se inclina e sussurra para sua mãe.)

Martinho: Mãe, quando vai chegar a nossa vez?

ANA: Vai demorar um pouco, meu filho. Fomos colocados por último.

Martinho: Só porque somos negros, mãe?

(Ana hesita, suspirando profundamente antes de responder, tentando explicar de forma que o menino entenda.)

Ana: Sim, meu filho. Mas lembra-se do que eu sempre te disse? Que, para Deus, todos nós somos iguais.

(Martinho franze a testa, tentando absorver a explicação. Ele parece ainda mais confuso.)

Martinho: Então... Jesus é branco?

(Ana não responde imediatamente, o que só aumenta a confusão de Martinho. Ela finalmente coloca a mão no ombro do filho e o olha com carinho.)

Ana: Martinho, a cor de Jesus não importa para Deus. O que importa é a fé que carregamos no coração.

(Martinho balança a cabeça levemente, ainda tentando processar as palavras da mãe. Enquanto isso, o padre continua chamando, uma a uma, as crianças brancas para a cerimônia de confirmação. Elas se levantam e se dirigem ao altar em uma ordem metódica, acompanhadas pelos pais.

A cerimônia se desenrola, e após algum tempo, todas as crianças brancas se sentam novamente em suas fileiras. O padre faz uma pausa, limpa a testa com um lenço e então, com um tom formal, chama as crianças negras para o altar.)

Padre: Agora, que se aproximem as crianças restantes para a cerimônia de confirmação.

(Ana faz um sinal para Martinho, indicando que é sua vez. Ele respira fundo e se levanta, hesitante, aproximando-se do altar. O padre observa-o por um momento e sinaliza para que ele venha até o centro.

Martinho é o primeiro entre as crianças negras. Ele se ajoelha diante do padre, que se inclina para realizar a confirmação. Com um gesto lento, o padre faz o sinal da cruz na testa de Martinho e, em um movimento simbólico, passa a mão pelo rosto do menino.

Neste momento, a câmera faz um zoom dramático e exagerado no rosto de Martinho. Conforme o padre passa a mão pelo rosto dele, há uma transição visual suave, como se a mão do padre deslizasse pelo tempo e o toque transformasse Martinho em um jovem adulto. O rosto de Martinho se enrijece, e suas feições agora são as de um homem jovem, carregando consigo o peso de todas as experiências que teve.

O novo Martinho 'Juan Paiva' se levanta, ainda de olhos fechados, como se absorvendo o momento. Ele abre os olhos e se levanta com uma nova postura, mais confiante e determinado. O ambiente ao redor dele permanece o mesmo, mas agora o peso da história mudou com ele.)

Padre: Que Deus o acompanhe, meu filho.

(Martinho agora adulto olha para o padre, faz um aceno de cabeça respeitoso e se vira, caminhando para se juntar novamente à sua mãe, Ana, que observa com um olhar emocionado. Há um breve momento de silêncio antes de a câmera dar um fade out.)

Corte para a próxima cena.

Cena 03 (Barbearia/Manhã)

(A cena começa na barbearia de Don Cayetano. É uma manhã movimentada e o local está cheio de clientes que conversam entre si enquanto aguardam seus atendimentos. Martinho, agora um jovem adulto, trabalha com habilidade e atenção, cuidando da barba de um senhor idoso sentado na cadeira de cortes. Don Cayetano está ao fundo, arrumando seus instrumentos e falando sobre a situação política de Lima, no Peru.)

Don Cayetano: Ouvi dizer que as coisas em Lima estão mudando. A política lá nunca foi tão instável... (balança a cabeça, em tom crítico) E o vice-reinado? Parece que cada decisão é mais insana que a anterior.

(Martinho escuta atentamente enquanto continua aparando a barba do senhor idoso, atento aos detalhes do corte.)

Martinho: Isso é o que dizem, Don Cayetano. Mas acredito que os ventos mudam onde os homens são mais duros do que as palavras.

(O senhor na cadeira sorri levemente, aprovando a conversa entre o jovem e o mestre. De repente, um homem entra na barbearia, visivelmente incomodado, tocando o lado do rosto onde há um pelo encravado.)

Homem: Com licença... a dor é insuportável.

(Martinho olha para o homem e, com um semblante calmo, se volta para o senhor idoso, colocando suavemente a toalha no ombro dele.)

Martinho: Me perdoe, senhor, mas os que sofrem merecem nossa atenção primeiro. A dor, por menor que seja, merece cuidado.

(O senhor idoso, que já estava relaxado, levanta-se com um sorriso gentil e faz um gesto de aprovação.)

Senhor Idoso: Sem problema, meu rapaz. E que fique registrado, Don Cayetano, o jovem Martinho é um verdadeiro talento! Seus serviços são impecáveis.

(Don Cayetano, de mãos ocupadas polindo uma navalha, acena com a cabeça em concordância.)

Don Cayetano: Martinho é um bom moço, mesmo trabalhando só de manhã comigo e de tarde ajudando o Mateo Pastor. Nunca reclama, sempre está disposto. Tenho sorte de tê-lo aqui.

(O homem com o pelo encravado toma o lugar na cadeira e Martinho começa a preparar suas ferramentas. Ele lava suas mãos cuidadosamente e pega um pequeno espelho, inclinando-o em direção ao homem para lhe mostrar o local da inflamação. O homem, aflito, respira fundo e Martinho o tranquiliza com um tom firme, porém acolhedor.)

Martinho: Sei que está com medo da dor, senhor, mas lembre-se: sem a dor, não nos encontraríamos. Às vezes, é no desconforto que encontramos o alívio.

(O homem engole em seco, mas assente, aceitando a sabedoria nas palavras do barbeiro. Martinho segura as ferramentas e, com uma habilidade quase cirúrgica, começa a remover o pelo encravado. Ele trabalha com precisão e leveza.)

Martinho: (concentrado, mas confiante) Agora, feche os olhos e respire devagar. Isso será breve.

(Após um momento de silêncio, Martinho termina o procedimento sem maiores reações do homem, que abre os olhos lentamente.)

Homem: Já acabou? Eu nem senti nada!

(Don Cayetano se aproxima da cadeira, analisando o trabalho de Martinho e, impressionado, coloca a mão no ombro do jovem.)

Don Cayetano: E por que sentiria, meu caro? Martinho aqui é um mulato com mãos de santo.

(Os clientes na barbearia se entreolham e acenam, murmurando entre si em aprovação. Martinho sorri, humilde, limpando suas ferramentas e se preparando para o próximo cliente.)

Homem: Obrigado, rapaz. Você me salvou.

Martinho: Que Deus o abençoe, senhor.

(Don Cayetano sorri para Martinho, como um mestre que vê potencial em seu aprendiz, e a câmera se afasta levemente, mostrando o movimento cotidiano da barbearia, enquanto a conversa volta a fluir entre os clientes.)

Corte para a próxima cena.

Cena 04 (Boteco/Tarde)

(A cena se passa no boteco de Mateo Pastor 'Luís Ricardo', um pequeno e aconchegante estabelecimento frequentado por moradores locais. Mateo está atrás do balcão, organizando garrafas e copos. Uma mulher de meia-idade entra apressadamente, visivelmente preocupada. Ela se aproxima de Mateo, que para o que está fazendo ao perceber sua expressão.)

Mulher: (angustiada) Mateo... Eu preciso da sua ajuda. Meu marido... ele está muito doente. Tem uma bola de pus no rosto que o atormenta, e ele quase não consegue dormir por causa da dor.

(Mateo ergue os olhos e franze o cenho, atento à preocupação da mulher. Ele conhece bem a comunidade e se mostra disposto a ajudar.)

Mateo: (calmo e experiente) Não se preocupe, senhora. Há uma solução simples que pode aliviar a dor do seu marido.

(Ele limpa as mãos num pano de prato, como se preparasse para uma tarefa delicada, e olha nos olhos da mulher, que espera ansiosa por suas instruções.)

Mateo: Primeiro, você vai precisar de óleo de rícino. Pegue um pouco e esquente bem. Não muito, apenas o suficiente para ficar morno ao toque.

(A mulher assente, absorvendo cada palavra com atenção.)

Mateo: Depois disso, misture o óleo de rícino com uma colher de óleo de coco e um pouco de azeite de oliva. Os três juntos vão ajudar a amolecer o pus e reduzir a inflamação.

(Ele faz um gesto com as mãos, como se estivesse mostrando a quantidade certa, para deixar claro o preparo.)

Mateo: Misture bem e passe essa solução no rosto do seu marido, onde está a dor. Faça isso de forma suave, como se estivesse acariciando o local, e deixe agir por alguns minutos antes de limpar.

(A mulher respira aliviada, anotando mentalmente cada detalhe.)

Mulher: Obrigada, Mateo. Que Deus lhe pague por essa orientação. Eu já estava desesperada... não sabia o que fazer para aliviar o sofrimento dele.

(Mateo balança a cabeça, compreensivo, e lhe oferece um sorriso tranquilizador.)

Mateo: Vá em paz, senhora. E diga ao seu marido que isso trará algum alívio. Mas, se a dor persistir, avise-me para que possamos procurar um médico.

(A mulher sorri agradecida e se despede com uma leve reverência, saindo apressada para aplicar a receita no marido. Mateo observa a porta do boteco fechar-se lentamente e volta sua atenção para os clientes que aguardam no balcão.)

Corte para a próxima cena.

Cena 05 (Boteco/Balcão/Tarde)

(A cena se passa no movimentado boteco de Mateo Pastor. O local está cheio, e os fregueses conversam enquanto bebem e fazem suas refeições. Mateo caminha entre as mesas, procurando por Martinho, que está atendendo alguns clientes no canto. Ele o vê e se aproxima.)

Mateo: (com uma leve urgência na voz) Martinho, você já preparou aquela receita de creme para a pele que pedi?

(Martinho, concentrado em organizar algumas garrafas na prateleira, se vira com um sorriso satisfeito.)

Martinho: Claro, Mateo. Fiz como o senhor me ensinou. Acrescentei o óleo de amêndoas como pediu. Só precisa deixar descansar por mais algumas horas.

(Mateo acena com a cabeça, aliviado com a resposta. Mas, então, ele olha para Martinho com uma expressão mais curiosa, recordando-se de algo.)

Mateo: E me diz uma coisa, rapaz… Como foi que você evitou aquela hemorragia no homem com o pelo encravado? Pensei que ia ver uma bagunça de sangue por aqui!

(Martinho dá um sorriso divertido e responde com uma leve ironia.)

Martinho: Ah, senhor Mateo, foi simples! Rezei para que Deus me guiasse e Ele segurou a mão do alicate! Parece que a fé vale para tudo, até na barbearia.

(Mateo ri alto, balançando a cabeça com aprovação.)

Mateo: Ah, Martinho, você tem o dom de fazer até as coisas mais sérias parecerem brincadeira!

(Por um momento, Mateo parece se perder em seus próprios pensamentos. Então, subitamente, ele se lembra de algo importante.)

Mateo: Ah, antes que eu me esqueça… Uma carta chegou hoje pela manhã, vinda do Panamá.

(Martinho, que estava distraído organizando copos, vira-se imediatamente com os olhos arregalados.)

Martinho: Uma carta do Panamá? Para quem, senhor Mateo?

Mateo: Para sua mãe. Eu entreguei para ela pessoalmente. Ela parecia ansiosa, então achei melhor deixá-la com a carta antes de sair para trabalhar. Talvez tenha notícias importantes. Melhor você correr para casa, rapaz.

(Martinho parece alarmado, preocupado com o teor da carta, mas ao mesmo tempo ansioso para saber o conteúdo. Ele agradece rapidamente a Mateo, saindo do boteco às pressas.)

Martinho: Obrigado, senhor Mateo! Eu vou para casa agora mesmo!

(Mateo sorri, observando Martinho sair do boteco quase correndo. Ele sacode a cabeça, murmurando para si mesmo com um sorriso afetuoso.)

Mateo: Esse menino tem uma energia que não se acaba…

Cena 06 - Ruas de Lima - Tarde

(A cena termina com Martinho correndo pelas ruas movimentadas, desviando dos transeuntes, com o semblante tenso e uma mistura de expectativa e receio estampada em seu rosto.)

Corte para a próxima cena.

Cena 07 - Casa de Martinho - Sala - Tarde

(A cena começa na casa modesta de Martinho e Ana. Martinho, ofegante, entra pela porta com a carta do Panamá em mãos, entregue por Mateo. Ana o recebe com uma expressão de curiosidade e uma leve ansiedade.)

Ana: (com um sorriso tenso) Filho, o que dizia a carta? É algo sobre seu pai?

(Martinho hesita por um momento, olhando para o envelope. Ele respira fundo antes de começar a ler em voz alta.)

Martinho: Sim, mãe… É uma carta de papá Juan. Vou ler para a senhora.

(Ana se senta, com os olhos brilhando de expectativa. Martinho começa a ler a carta em voz alta.)

Martinho: "Querida Ana, espero que esta carta os encontre com boa saúde. Quando cheguei a Guayaquil, fui informado de que um 'crioulo' da fazenda aqui próxima, chamado Miguel, apaixonou-se por nossa Juana..."

(Ana leva uma mão ao coração, surpresa e emocionada.)

Ana: Nossa Juana… apaixonada?

Martinho: "… e parece que eles estão prestes a se casar. Ele é um rapaz de bom caráter, e todos falam bem dele. Sei que você gostaria de conhecê-lo. Juana sente muita saudade de casa e manda beijos para você e para o Martinho."

(Ana sorri, com os olhos cheios de lágrimas.)

Ana: Oh, minha filha… como ela deve estar feliz! E… logo um casamento!

(Martinho abaixa a carta e observa a mãe, sorrindo de leve ao ver sua felicidade.)

Martinho: Sim, mãe… Parece que o futuro de Juana está se desenhando de forma bela.

(Ana olha para Martinho com um olhar emocionado e esperançoso.)

Ana: Logo, breve, veremos seu pai, Martinho. E conheceremos esse rapaz, Miguel. Estou tão animada com isso. Parece um sonho se tornando realidade.

(Martinho tenta compartilhar da animação da mãe, mas há algo em sua expressão que sugere que seus pensamentos estão em outro lugar. Ele coloca a carta sobre a mesa.)

Martinho: Eu compartilho sua alegria, mãe. Juana merece ser feliz.

(Ana observa o filho por um momento, percebendo algo em seu tom de voz, mas decide não perguntar. Ela se levanta e coloca a mão gentilmente no ombro dele.)

Ana: Vou preparar um jantar especial hoje. Podemos celebrar esta boa notícia juntos.

(Martinho se levanta lentamente, balançando a cabeça com um pequeno sorriso, mas seu entusiasmo é contido.)

Martinho: Mãe, hoje eu… acho que não vou conseguir jantar com a senhora.

(Ana parece preocupada.)

Ana: Mas por quê, filho? Você precisa se alimentar bem.

Martinho: O Frei Barragán está muito doente, mãe. Achei melhor fazer um remédio para ajudá-lo. Ele tem sido um guia para muitos na comunidade e está precisando de nossa ajuda agora.

(Ana suspira, sabendo o quão importante o Frei Barragán é para Martinho e para a comunidade. Ela assente com a cabeça.)

Ana: Você é tão atencioso, Martinho. Deus o abençoe por sempre cuidar dos outros. Vá, faça o remédio. Eu farei o jantar e guardarei uma porção para você.

(Martinho agradece com um olhar e sai do cômodo, voltando sua atenção para preparar o remédio. Ana observa o filho sair, sentindo um misto de orgulho e tristeza pela distância emocional que sente, sabendo que ele está se tornando cada vez mais responsável e independente.)

Corte para a próxima cena.

Cena 08 - Igreja - Degrais - Tarde

(A cena começa do lado de fora de uma igreja modesta, onde dois homens saem enquanto conversam em voz baixa. Assim que eles se afastam, um grupo de pessoas sem-teto começa a se reunir perto dos degraus da igreja. Eles murmuram e pedem esmolas incessantemente. Martinho, agora um homem jovem e respeitado na comunidade, chega, e a multidão de sem-teto se aglomera ao seu redor, cada um estendendo a mão e clamando por sua atenção.)

Sem-teto 1: Por favor, senhor Martinho, me ajude. Tenho fome há dias…

Sem-teto 2: Uma esmola pelo amor de Deus…

(Martinho mantém a calma, observando a multidão ao seu redor com um olhar compassivo. Ele coloca a mão no bolso e retira um pequeno saco de moedas. Pega algumas moedas e, uma por uma, entrega a cada pessoa ali.)

Martinho: Aqui está. Que Deus os acompanhe.

(Ele continua distribuindo as moedas, até que um homem entre a multidão, visivelmente mais bem-vestido e saudável, se aproxima com um olhar esperto.)

Homem Bem-vestido: Uma esmola, senhor? Qualquer coisa que o senhor puder dar.

(Martinho observa o homem por um instante, franzindo levemente o cenho. Com um tom firme, mas sem hostilidade, ele responde.)

Martinho: O senhor está com boa saúde, amigo. E com certeza não precisa disso.

(O homem olha surpreso, tentando argumentar, mas uma mulher entre a multidão interrompe.)

Mulher Sem-teto: Como o senhor sabe disso, Martinho?

Martinho: (sorrindo levemente) Um passarinho me contou.

(A mulher sorri de volta, admirada com a perspicácia de Martinho. Os sem-teto ao redor agradecem, chamando-o de “mulato bondoso” e desejando bênçãos a ele.)

Sem-teto 1: Deus o abençoe, senhor Martinho.

Sem-teto 2: Que o senhor sempre tenha sorte.

(Martinho apenas acena com um sorriso enquanto começa a se afastar. De repente, um menino de aproximadamente 10 anos, sujo e com roupas esfarrapadas, chega correndo, ofegante e com os olhos arregalados de preocupação.)

Menino: Senhor Martinho! Senhor Martinho!

(Martinho se vira rapidamente, percebendo o tom de urgência na voz do menino.)

Martinho: O que houve, garoto? Por que está correndo assim?

Menino: Dispararam… dispararam num amigo seu…

(Martinho empalidece ao ouvir a notícia, abaixando-se para ficar na mesma altura do menino.)

Martinho: Dispararam? Onde ele está?

(O menino respira fundo, tentando recuperar o fôlego antes de continuar.)

Menino: Ele está… no acampamento… perto do rio.

(Martinho sente uma mistura de pânico e determinação em seu olhar. Ele respira fundo, tentando manter a calma, e coloca a mão no ombro do menino.)

Martinho: Está bem. Eu vou até lá agora.

(Martinho olha ao redor rapidamente, percebendo os olhares dos sem-teto e das pessoas da igreja que ainda o observam. Ele se levanta, determinado, e começa a correr na direção do acampamento, enquanto a câmera o segue, capturando seu rosto sério e preocupado.)

Corte para a próxima cena.

Cena 09 - Acampamento - Tarde

(A cena se inicia no acampamento improvisado, próximo ao rio, onde Martinho chega apressado. Ele encontra um homem deitado no chão, ferido, com uma expressão de dor no rosto. Alguns moradores do acampamento se afastam, dando espaço para Martinho se aproximar e avaliar o ferimento. Martinho se ajoelha ao lado do homem e começa a preparar um curativo.)

Martinho: Calma, amigo. Eu estou aqui para te ajudar.

(O homem ferido olha para Martinho com uma expressão carregada de desconfiança e ressentimento. Seus olhos seguem os movimentos de Martinho com uma rigidez perceptível.)

Homem Ferido: (com voz rouca e cheia de amargura) Por que você está me ajudando?

Martinho: (sem levantar o olhar, focado no curativo) Porque é o certo a se fazer. Todos merecem cuidado.

(O homem permanece em silêncio por um momento, mas sua expressão azeda se intensifica. Ele finalmente quebra o silêncio com uma risada cínica.)

Homem Ferido: É isso? Sangue negro ajudando os brancos? Você se acha diferente, Martinho? Se acha um deles?

(Martinho para o que está fazendo e olha diretamente para o homem, mantendo uma postura calma, mas séria.)

Martinho: Eu não me junto com gente branca… eu me junto com o povo de Deus.

(O homem ferido se irrita ainda mais e tenta se levantar parcialmente, mas a dor o impede de ir mais longe. Seu olhar é cheio de ódio, e ele fala com uma voz entrecortada pela raiva.)

Homem Ferido: (com desprezo) Povo de Deus? Que povo de Deus? Você está cego, Martinho! Eles nunca vão te aceitar… você é um deles e sempre vai ser… um negro servindo a brancos!

(Martinho observa o homem por um instante, tentando manter a calma. Ele respira fundo, mas antes que possa responder, o homem ferido cospe em seu rosto com raiva e desprezo. Martinho fica imóvel por alguns segundos, absorvendo o impacto do gesto. Ele limpa o rosto lentamente e, com a voz firme e olhar fixo, começa a falar.)

Martinho: Você tem muito ódio no seu coração, amigo. Eu entendo sua revolta… e talvez sua dor seja justa, talvez você tenha suas razões. Mas o ódio que você guarda dentro de si não vai mudar nada. Ele só vai te consumir…

(O homem ferido tenta desviar o olhar, mas algo na voz de Martinho o impede.)

Martinho: Nem todos aqueles que você odeia têm culpa pelas dores que você carrega. Eu não sou cego… eu vejo as injustiças, eu vejo a dor dos meus. Mas viver pelo ódio nos afasta de Deus, e só aumenta nossa miséria.

(Martinho coloca a mão no ombro do homem, em um gesto de compreensão.)

Martinho: Deixe que o ódio vá embora… perdoar não é esquecer, mas é se libertar do que te prende. Mesmo que eles não mudem, mesmo que ainda soframos… nosso coração precisa estar limpo para que Deus veja em nós um caminho.

(O homem ferido fica em silêncio, seu rosto contorcido em um misto de raiva e confusão. As palavras de Martinho parecem penetrar em seus pensamentos, mas ele não sabe como reagir. Martinho, com um olhar de compaixão, termina o curativo.)

Martinho: Eu não sou melhor do que você… apenas escolhi não deixar o ódio decidir quem eu sou.

(Martinho se levanta, dando um passo para trás, enquanto os outros moradores do acampamento observam em silêncio. O homem ferido permanece quieto, absorvendo o que foi dito, enquanto Martinho se afasta, deixando para trás um eco de suas palavras.)

Corte para a próxima cena.

Cena 10 Igreja - Escadaria - Tarde

(A cena começa com Martinho correndo apressadamente em direção à igreja, como se estivesse atrasado para algo importante. O som de seus passos ecoa pelas paredes da igreja vazia. Ele para por um instante, olhando para uma longa escadaria que leva ao segundo andar, onde o sino da igreja está pendurado. Martinho parece decidido e começa a subir os degraus rapidamente.)

(A câmera acompanha seus passos apressados até que ela começa a focar apenas no seu rosto. O zoom vai se aproximando lentamente, mas de forma dramática e exagerada, até que apenas o rosto de Martinho, tenso e suado, preenche a tela.)

Martinho: (sussurrando para si mesmo, com uma voz nervosa) Só mais um pouco… só mais um pouco…

(De repente, sem aviso, uma música orquestral dramática começa a tocar ao fundo, como se algo de extrema gravidade estivesse prestes a acontecer. Martinho para no meio das escadas, seu rosto se contorcendo em pânico inexplicável. Seus olhos se arregalam e ele respira ofegante.)

(O zoom na câmera aumenta ainda mais, focando apenas nos olhos arregalados de Martinho, enquanto o ambiente ao redor fica embaçado. A música dramática atinge um clímax absurdo, como se o momento estivesse carregado de um peso irreal.)

Martinho: (sussurrando, quase como se visse algo aterrorizante à sua frente) Meu Deus… não pode ser…

(O suspense atinge seu ápice. A câmera faz uma transição abrupta para um plano mais amplo, onde Martinho perde o equilíbrio dramaticamente, balançando os braços como se estivesse à beira de uma queda épica. Os acordes da música se tornam exageradamente altos, aumentando a sensação de tragédia iminente.)

(Por alguns instantes, Martinho parece estar prestes a cair das escadas. Mas, no último momento, ele recupera o equilíbrio, agarrando o corrimão com uma expressão de alívio dramático no rosto. A música corta abruptamente, transformando a tensão em um silêncio quase cômico.)

(Martinho olha ao redor, visivelmente envergonhado, percebendo que o drama todo foi desnecessário. Ele solta um suspiro profundo e continua subindo as escadas, mas desta vez com mais cautela, enquanto um pequeno sorriso de constrangimento surge em seu rosto.)

(A câmera se afasta lentamente, deixando Martinho subir as escadas até desaparecer no segundo andar. A cena termina com um leve som de um sino distante tocando, enquanto a trilha sonora se transforma de dramática para uma melodia suave e quase irônica.)

A câmera congela.

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