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31/01/2025

A Culpa dos Anjos – Capítulo 5 (31/01/2025)


novela de
João Daniel

CAPÍTULO 5:

No capítulo anterior...

Helena sente uma dor profunda e desmaia ao pressentir a morte da filha. Enquanto isso, André, desesperado, segura o corpo sem vida de Clara, recusando-se a aceitar a tragédia. José, em choque, foge da cena, negando sua culpa. A cidade se reúne, e André é acusado pelo povo, enquanto o corpo de Clara é levado ao necrotério. Ao despertar, Helena recebe a notícia devastadora e cai em desespero. As amigas de Clara tentam apoiar André, mas ele decide partir, sendo hostilizado pelos moradores.

Fique agora com o capítulo de hoje...

O silêncio na mansão dos Barros de Albuquerque é quase que ensurdecedor. Só se ouve os passos dos moradores e empregados e choramingos pelos cantos da casa. Com a morte de Clara, todos ficaram muito abalados. No seu quarto, Helena se arruma para ir ao velório e enterro de sua filha.

— Eu não me conformo, Janete. Não me conformo. Como pode minha filha, tão jovem, tão cheia de vida como é... Eu ainda não me acostumei a usar “era”, meu subconsciente se recusa a aceitar. Ai, como dói, como dói... — diz Helena, quase aos prantos.

— Oh, Dona Helena, eu também me recuso a acreditar. Tô sentindo um vazio tão grande no peito. Por mais que eu não era mãe ou tinha alguma ligação de sangue com a Clarinha, era como se tivesse, sabe? Uma ligação muito forte. Mas se esses foram os planos de Deus, só nos resta aceitar. — diz Janete, tentando se conformar.

— É, só Deus sabe das coisas mesmo. Vamos, Janete, eu não quero me atrasar.

— Vamos, patroa.

E assim as duas saem de casa em procissão à igreja matriz da cidade, sendo elas acompanhadas pela família e centenas de moradores. O velório foi marcado pelo pai de Clara, que chegará paras unir ao cortejo em homenagem à sua filha. Ele está muito arrasado, não se conforma em perder seu “pedacinho de céu”, que era como a chamava. Mesmo sendo um homem muito rigoroso e conservador, era muito carinhoso com sua família.

Chegando na igreja, Helena não aguentou, caiu em lágrimas ali mesmo ao ver o corpo de sua filha num caixão. Aquela situação para ela era um inferno, a pior que poderia acontecer em sua vida. E infelizmente aconteceu. Os irmãos de Clara também desataram a chorar, assim como Janete. Somente Rogério, o pai, não chorou. Mas estava completamente destruído por dentro.

Do lado de fora da igreja, em uma posição favorável à vista do caixão, estava José. O homem, por mais que tenha feito o que fez, ainda era obcecado por Clara. Não podia negar a si mesmo que estava arrasado. Ver Clara ali, morta, fez crescer um sentimento de culpa e arrependimento tão grandes que não aguentou mais ficar na igreja e saiu. Mais atrás do lugar em que José estava, se encontrava Dr. Luiz. Este, por fora, apenas dava um leve sorriso sem mostrar os dentes, mas por dentro estava tão eufórico em saber e ver que sua principal rival finalmente havia falecido. Por dentro também sabia que o motivo de sua euforia não era só esse. Tinha uma motivação muito maior para todo esse ódio. 

Quando o sinos da igreja tocaram anunciando que já eram seis horas da tarde, a procissão partiu para o cemitério. O pai de Clara e amigos da menina ajudaram a levar o caixão. Ao chegar no cemitério, o padre fez a cerimônia de enterro tradicional e, ao som de muitas pessoas se desabando em lágrimas, o caixão foi enterrado. Ali, Helena sentiu que um novo capítulo em sua vida havia começado. Um capítulo de muita dor, amargura, tristeza e sofrimento.

Vinte e quatro anos depois...

Rio de Janeiro, 2003.

Ao som de “Princípio, Meio e Fim” da cantora Camilla Araújo, vem surgindo a cidade do Rio de Janeiro em toda a sua formosura. Suas praias, seus belíssimos pontos turísticos. Enfim, o Rio. Num apartamento no Andaraí, está André. Após o ocorrido em Santa Esperança, decidiu sumir da cidadezinha. Veio tentar a vida no Rio, mas nunca se esqueceu do que ocorreu com Clara. Sua lembrança ainda era muito presente na memória, aparecendo com uma certa frequência nos sonhos de André. O mesmo está a se arrumar, acompanhado de seu amigo Cláudio, para uma roda de samba em Vila Isabel.

— Vamos que vamos, por que hoje tem sambinha, né não, Cláudio? — diz André, animado.

— Oh se tem meu amigo! Hoje eu passo o rodo naquela roda. Mas e você, Drezinho? Não pensa em reativar esse seu coração não? — pergunta Cláudio.

— Ah, amigo, desde que a Clara morreu acho que nunca mais senti nada de mais por ninguém. Era um amor forte, sabe? Desses de conexão de alma mesmo.

— Balela isso aí, quero ver se alguma gata não te fisga hoje.

— Vamos ver, Cláudio — diz André entre risos —, vamos ver.

Os dois saem de casa, animados. A noite parece prometer.

Já na roda de samba, o ambiente está muito animado. Pessoas estão se acabando em dançar, curtindo ali o som do lugar. Os dois chegam já chamando a atenção, André, por seu charme e beleza, e Cláudio, pela beleza e também seu carisma. Eles cumprimentam a todos os conhecidos e se sentam numa das mesas do local.

— Meu irmão... Você já viu o tanto de mulher gostosa que tem aqui? É hoje que eu me acabo, Jesus! — exclama Cláudio — Vou já começar a conhecer as moças, mas também se movimente, André. Vai caçar alguma formosura pra você.

— Eu prefiro ficar aqui admirando o ambiente Cláudio, acho melhor. — disse André soltando uma risadinha de leve.

— Se você diz, André, eu confio. Se divirta, hein?

André gesticula para seu amigo como se fosse um soldado cumprindo uma ordem. Minutos depois, avista uma linda mulher, de média estatura, cabelos escuros, dançando tão bem quanto uma rainha de bateria. André se encantou por ela assim que botou os olhos nela. Era a primeira vez que alguém lhe atraía assim nos últimos vinte e quatro anos. Não conseguia desgrudar os olhos da moça, que acabou percebendo e retribuindo os olhares, deixando André sem graça. Continuaram ali trocando olhares por um bom tempo, até que André teve coragem de ir conversar com a moça.

— Oi, você está linda hoje. — diz André envergonhado.

— Obrigada! — sorri a moça sem graça, mas encantada — Qual a sua graça?

— André, prazer. E qual o nome da bela moça?

— Sou Mariana, prazer. Mas não me chame de moça, não sou tão nova assim. 

— Você que manda, Mariana. Acho que vamos nos dar muito bem.

De volta à Santa Esperança, na mansão dos Barros de Albuquerque reina novamente o silêncio. Mas dessa vez não é pela morte de alguém da família, e sim porque já está tarde da noite. Em seu escritório, Helena está lendo um livro, mas já o fecha pois tem que dormir.

— Deixa eu marcar aqui... Pronto! Continuo amanhã.

Helena ouve batidas na porta de seu escritório e vai abrir, é Janete.

— Dona Helena, deixaram essa carta aqui pra senhora.

— Guarde-a, Janete. Leio amanhã, hoje estou cansadíssima.

— Mas aqui no envelope diz ser importante, acho que a senhora deveria abrir.

— Ai, tá bom, me convenceu. Deixe-me ler.

Helena pega a carta e a abre, quando lê o que estava escrito na carta, suas mãos começam a tremer e ela desmaia.

—Meu Deus, Dona Helena!

Na carta havia os dizeres, escritos por uma máquina de escrever: “Eu sei quem matou a sua filha”.

A imagem vai perdendo a cor aos poucos. Um anjo esvoaçante passa pela tela e após a sua passagem, tudo se escurece.

TRILHA SONORA DISPONÍVEL!

25/01/2025

A Culpa dos Anjos – Capítulo 3 (25/01/2025)

 

novela de
 João Daniel

Caros leitor, antes do início de sua leitura, venho humildemente aqui pedir desculpas por não ter postado a novela nos dias 22, 23 e 24/01. Infelizmente não tive tempo hábil na minha rotina, além de alguns contratempos que impossibilitaram a postagem desse capítulo no dia correto. Mais uma vez, desculpas, e prometo que vou avisar quando não sair capítulo da novela. Um beijo e boa leitura!!!

 CAPÍTULO 3:

No capítulo anterior...

O capítulo mostra José sendo pressionado por Dr. Luiz a executar um plano contra sua vontade, enquanto Clara tenta lidar com o pressentimento sombrio de sua mãe, Helena. Apesar disso, Clara e André passam um dia mágico juntos em um piquenique, fortalecendo seu amor. Ao se preparar para a festa de Marcela, Clara é cercada de carinho por sua família, especialmente por Janete, sua empregada e confidente. Contudo, ao sair de casa para encontrar André, Helena sente um forte presságio de perigo envolvendo a filha, intensificando seu desespero e medo de perdê-la.

Fique agora com o capítulo de hoje...

Helena está chorando intensamente e gritando na mesma intensidade, Janete escuta e vai acudir a patroa.

— Ai meu Deus, patroa, o que que aconteceu com a senhora?! — diz Janete, desesperada.

— A... A Clara... — balbucia Helena.

— O que tem a Clarinha, patroa?

— A minha filhinha, Janete, a minha menininha de ouro... — começa a chorar, não aguentando a sensação que está sentindo — Ela não pode morrer. Ela não!

— Oh, dona Helena, fala assim não que a senhora corta meu coração. Essa sensação que a senhora tá sentindo é mais comum do que a senhora imagina. Tem uma amiga minha que sentia a mesma coisa pela filha... — cai em si — Só que a fila dela... morreu.

Helena começa a chorar ainda mais, agora acompanhada por Janete. As duas estão sem chão, completamente atordoadas. Não conseguem sequer pensar em outra coisa.

Na festa, Clara sai do carro acompanhada de André. Assim que chega, se torna o centro da atenções da festa. Ela não gosta muito disso pois se sente muito invadida, sem a liberdade de ser ela mesma. Ela cumprimenta a todos, e André também.

— Vou parar para conversar com meus parceiros aqui, viu, amor? — pergunta André.

— Tudo bem, meu bem. Se divirta, vou conversar com as meninas, tenho algumas atualizações. — ri Clara.

Clara chega e reúne as garotas, são suas amigas de infância, são elas: Marcela,  Judite, Inês e Violeta. Ela conta às amigas as novidades dela, da cidade e de todo o resto. Mas reserva um tempinho especial para dizer sobre o ocorrido no mesmo dia.

— Mas aqui, amigas, vamos deixar de enrolação e vamos ao que interessa: o que rolou hoje. — diz Clara, em um tom de suspense leve.

— Conta, amiga. Entre a gente não tem segredos, você sabe. — incentiva Marcela.

— Então, hoje eu tive a minha primeira vez! Foi muito bom, meninas, muito mesmo. Acho que tô amando o André mais ainda depois disso.

— Que fofo, minha gente. Mas aqui, amiga, dói? — indaga Inês, ainda virgem.

— Olha, não vou dizer que não, porque dói sim — diz rindo —, mas é tão bom que eu nem acredito que aconteceu, viu. Estou andando nas nuvens.

— Ai, amiga, diga por você que teve uma boa primeira vez. Eu mesma não tive. Pensa num cara que não sabia fazer nada direito, até hoje eu lamento ter me entregado para aquele chorume de gente. — desabafa Violeta, suspirando de decepção.

— Ah, gente, minha primeira vez foi até razoável, vai. O gatinho até sabia fazer, pena que era tão pequeno que eu tinha que fingir que sentia algo. Me senti péssima depois, mas caí em mim e percebi que a culpa não é minha se ele tinha uma desvantagem lá nos países baixos. — diz Judite, quase rindo.

— Mas e você, Marcela? Não vai nos contar sobre suas aventuras? — pergunta Clara.

— Não contei pra vocês, mas hoje mesmo eu terei minha primeira vez com um carinha aí que arranjei, apresento-o mais tarde pra vocês. Torçam pra que dê tudo certo! — pede Marcela.

As amigas gritam quase que em uníssono. Estão felizes por Marcela finalmente saborear dos prazeres da vida, que, afinal, são muito bons. André chega e diz: 

— Perdão interromper a conversa das moças, mas poderia tirar a mulher mais incrível do mundo para dançar? — pergunta ele pegando a mão de Clara.

— Claro, querido, cuidado com nossa amiga, hein? — diz Violeta em tom de aviso, mas não sério.

— Tá bom. Vou tratá-la como uma rainha. Prometo. — André faz um gesto de promessa e as meninas entendem.

Está tocando “Como é Grande o Meu Amor Por Você”, de Roberto Carlos, e os casais estão todos na pista de dança. Clara e André dançam coladinhos, se beijando várias vezes. Os dois estão tão felizes que nada poderia acabar com essa felicidade.

Após algumas músicas românticas, começam a tocar hits do disco. “Dancin’ Days”, do grupo As Frenéticas, foi a primeira a tocar, pois estava passando a novela de nome homônimo na época. Fazia um estrondoso sucesso na época. Em Santa Esperança não haviam tantos televisores na época, mas nos que lá haviam as pessoas se juntavam pra assistir. André e Clara se tornam os principais da pista. Dançam como se não houvesse amanhã. 

Após isso, os dois se retiram da concentração de público para ficarem um pouco sozinhos. O local era basicamente ao lado do rio que tinha no fundo da casa de Marcela. O que eles não esperavam é que estavam sendo observados de longe por José. Trocaram uns beijos, deram uns amassos, coisas de casal jovem.

Sem ninguém perceber, José entra na propriedade da família de Marcela. O que ele também não sabe é que tem alguém o observando também. José vai se aproximando cada vez mais do casal, e eles ainda ali, no seu momento de intimidade. O capanga de Luiz tira um facão da cintura, e vai chegando mais perto ainda dos dois. De repente, José grita, fincando o facão no chão e assustando o casal que está em completo choque.

— Mas que desgraça está havendo aqui? — diz André, muito assustado.

— Ora, ora, seu André. Quer dizer que não sabe mesmo o que significa meu facão fincado aqui? Eu vim acabar com tudo pra vocês, chegaram ao fim da linha, queridos.

— José, por favor, não faça nada com a gente. O que fizemos para merecer isso? Tenho certeza de que é coisa do Dr. Luiz. É, não é? — pergunta Clara, tentando contornar a situação.

— Olha aqui, Clarinha, não é da sua conta se eu fui mandado ou se estou aqui por vontade própria. O problema é que eu sempre fui apaixonado por você, mas você sempre me desprezou. Sempre me jogava de escanteio, até ser grossa comigo você já foi. Mas agora resolvi tomar uma decisão, se você não vai ser minha, não vai ser de mais ninguém. Sinto muito ter que fazer isso com você, mas infelizmente você me obrigou a ser um mocinho mau. — diz ele retirando o facão da terra e erguendo-o.

— Você não tem o direito de falar assim com a minha Clara. Quem você pensa que é, seu desgraçado, filho de uma puta? — André diz já partindo pro confronto corporal.

— Quer brigar, idiota, quer? Então vem. — Aponta o facão em direção ao corajoso jovem.

André entra em uma disputa com José para desestabilizá-lo e tirar do seu poder o facão. Quando está quase conseguindo, o facão se solta da mão de José e acaba ferindo Clara no peito, que grita com dor.

Fraca por conta do impacto, Clara dá alguns passos para trás, já começando a cambalear. Sem sentir mais que está andando, dá mais cinco passos em direção à encosta do rio, que possui uma leve altitude. Como uma leve pena, porém ainda com o facão fincado no peito, ela cai, rolando a encosta, já quase sem vida. Na mente da jovem, surgem imagens de toda a sua vida, momentos bons, momentos ruins, sua família, o amor da sua vida, as memoráveis conversas com as amigas e as discussões acaloradas no bar, que serviram para moldar quem Clara era até aquele momento. Junto ao último triste suspiro de Clara, veio o imbatível choque de sua cabeça contra uma pedra, já no rio. E ali se vai uma vida, que poderia ter sido ainda melhor se não fosse interrompida.

André, ao escutar o grito e ver Clara caindo, corre desesperadamente ao encontro da jovem, que está morta.

— CLARA!!!! — grita André, completamente desesperado e descendo o barranco.

Do outro lado da cidade pôde escutar-se o doloroso grito de Helena.

— NÃO, MEU DEUS, NÃO! CLARA!!! MINHA FILHA!

A imagem vai perdendo a cor aos poucos. Um anjo esvoaçante passa pela tela e após a sua passagem, tudo se escurece.

TRILHA SONORA DISPONÍVEL!

21/01/2025

A Culpa dos Anjos — Segundo Capítulo (21/01/2025)

 

novela de
 João Daniel

SEGUNDO CAPÍTULO:

No capítulo anterior...
Apresentamos Santa Esperança, uma cidade aparentemente pacífica, mas marcada por tensões conservadoras. Clara, herdeira da família Barros de Albuquerque, é uma jovem comunista que desafia os padrões locais. Apesar da oposição de sua mãe, Helena, e das ameaças do poderoso Dr. Luiz, Clara persiste em seus ideais. Após um dia intenso, no qual confronta Luiz e recebe apoio de seu namorado André, Clara enfrenta um pressentimento sombrio ao ouvir a mãe relatar um sonho onde ela aparece morta. Enquanto isso, Luiz manipula José, um pescador obcecado por Clara, para implementar seus planos.
Fique agora com o capítulo de hoje.

Dr. Luiz está em seu escritório conversando com José.

— Estamos entendidos, José? Você fará tudo o que eu mandei. Sem erros. — diz Luiz em tom ameaçador.

— Estamos sim, doutor — José pigarreia —, o senhor não terá mais problemas.

— Ótimo. Agora retire-se, está muito tarde. Abílio, meu motorista irá deixá-lo em casa.

— Tá bom. Até, doutor.

José sai da casa de Dr. Luiz preocupado em como irá exercer o plano que foi imposto a ele. Com medo, no caminho pra casa, não disse uma palavra. Se calou para pensar melhor.

De volta à mansão Barros de Albuquerque, Clara está no quarto da mãe a confortando pelo horrível pesadelo que teve. Porém, não pôde deixar de ficar com um aperto no peito pelos dizeres da mãe sobre o sonho que teve. Afinal, não é um bom presságio alguém sonhar com um ente querido morto.

— Mãe, vejo que está mais calma. Vou para o meu quarto e deixarei você descansando aqui. Até mais tarde. — diz Clara.

— Vai lá, meu amor, descanse também. Mas ouça o que digo, tome cuidado. Acho que você está em perigo. — alerta Helena.

— Tudo bem, mãe. Vou ter mais cautela com o que faço. Boa noite.

— Boa noite, minha filha.

 Clara vai de encontro ao seu quarto mais aflita do que já estava. Será que a premonição de sua mãe está certa? Deveria tomar mais cuidado? De tantas perguntas na cabeça, não conseguiu dormir mais.

O dia amanheceu lindo na cidade de Santa Esperança, as árvores estavam muito verdinhas, como se estivessem explodindo de vitalidade. O clima estava perfeitamente confortável, estava ensolarado, mas não muito quente. Ótimo para dar um passeio. Clara liga para a casa de André e chama-o para saírem juntos.

— Oi, meu amor. Quer sair um pouco para passearmos? O dia está tão lindo. — sugere Clara.

— Que ideia maravilhosa, princesa. Vamos sim, vou me arrumar aqui. Já já estarei aí na sua porta. — diz André.

— Ótimo, amor. Estarei aqui no aguardo.

Clara desliga o telefone e vai se arrumar para sair. Nem vai tomar café da manhã, ela come algo no caminho com André. Helena acha ótima a ideia que a filha teve, melhor ela se distrair depois de ontem. Mas ainda acha que a filha não deveria ir à festa de Marcela. Clara despede-se da mãe.

— Tchau, mãe. Volto antes do anoitecer. Não se preocupe comigo, estarei bem com meu namorado. — diz Clara.

— Por mais que o André tenha ideais tortos ao meu ver, ele é um bom namorado pra você. Até mais, meu amor. — responde Helena.

Clara vai em direção ao portão de sua casa e espera por André, que chega poucos minutos depois. Eles partem para um campo perto de um rio, um lugar lindo, daqueles que a gente fica tonto de tanta beleza. Eles passam antes numa mercearia e compram coisas para um piquenique. Chegando lá eles arrumam tudo e começam a comer, ficam conversando, falando do amor que sentem um pelo outro, do quão difícil está viver nessa nossa sociedade, e muitas mais coisas. No meio das falas, eles se beijavam e cada vez mais esses beijos se intensificavam. Até que Clara decidiu dar um mergulho no rio, acompanhada por André. Ela colocou seu biquíni mais bonito, encantando mais ainda André, que estava com seu coração a mil. Os dois entraram no rio e ficaram brincando com a água, até voltarem com as carícias. Dessa vez elas estavam tão intensas que André parou um instante e disse: 

— Tem certeza de que você quer isso?

— Com você eu quero tudo, meu amor. Tudo o que você me oferecer. Eu te amo. — diz Clara, dando um beijo em André.

E, ali mesmo nesse rio, eles tiveram sua primeira vez. Parecia mágica para ambos, mesmo com todas as dores características. Estavam tão apaixonados que nem sentiram elas. E, no final, André e Clara deram um beijo tão intenso que de alguma forma, conectou suas almas. Tudo ali parecia simplesmente surreal, mas não, eles estavam realmente vivendo aquilo.

Estava começando a escurecer, então Clara organizou tudo com a ajuda de André e voltaram para suas casas, para se arrumarem para a festa de mais tarde. Chegando em casa, Clara parecia estar nas nuvens, sua mãe até a viu e comentou: 

— Viu um passarinho verde, Clara?

— Vi, mãe. Vi passarinhos de todas as cores!

Clara sobe as escadas cantando a música “Como é Grande o Meu Amor Por Você”, de Roberto Carlos. Lá em cima, ela acaba vendo Janete e dança um pequeno passo de valsa com ela.

— Você está tão feliz, minha flor, fico muito feliz de te ver assim. Quer algo? — pergunta Janete.

— Ah, obrigada por todo o carinho, Janetinha. Você mora aqui — diz Clara apontado para seu coração —, é como uma segunda mãe para mim. Agora eu só queria tomar um banho e me arrumar para a festa, você me ajudaria?

— É claro, Clarinha. Vou te dar um tratamento digno da maior rainha do mundo! Vai ficar muito linda, apesar de já ser a mais bela obra de arte do mundo.

— Janetinha... eu nem sei o que dizer — diz Clara com os olhos marejados de emoção —, muito obrigada, mesmo! Te amo.

As duas se abraçam e vão para o quarto de Clara. Lá, Janete arruma Clara como uma verdadeira rainha. Estonteantemente bela. Descem juntas a escada e Janete até faz uma brincadeirinha: 

— Senhoras e senhores, descendo está a garota mais linda do mundo, Clara Barros de Albuquerque!

Clara é ovacionada pela mãe e pelos irmãos, que estão na sala. Estavam esperando pra ver como a garota tinha ficado. 

— Linda, minha irmã. Está faraônica, babilônica, mesopotâmica, a estrela principal da noite! — diz Otávio.

— Está mesmo belíssima, Clara. Que sua noite seja incrível. — diz Bernardo.

— Quando eu crescer quero ser igual a você, Clarinha. Te admiro muito minha irmã. — diz Renata, emocionada.

— Oh, meus irmãos, fico tão emocionada ouvindo vocês dizendo isso tudo pra mim. Estou tendo que segurar minhas lágrimas para não chorar, vai borrar minha maquiagem, hahahahah. Muito obrigada do fundo do meu coração, amo muito vocês.

— Minha filha, está tão linda, fico tão feliz em ver a maravilhosa moça que você se tornou. Espero que sua noite seja ótima e que você se divirta muito! Te amo incondicionalmente. — diz Helena, já chorando de emoção.

— Minha mãe, a senhora sempre me emocionando com suas belas palavras. Obrigado por todo o carinho, viu? Também te ame muito, do tamanho do mundo! — respondeu Clara, com a voz embargada.

— Bom, cadê o papai? Queria vê-lo. Disse que chegaria hoje.

— Seu pai teve um imprevisto na viagem de volta, minha filha. Mas disse que não demorava. Deve estar chegando mais tarde. 

— Ah, quando chegar, vejo ele então.

Helena concordou, mas com um aperto no coração, pois estava sentindo que aquilo era uma despedida.

— Bom, já vou indo. Disse para o Basílio passar na casa do André, ele já deve estar me esperando. Até mais, meus amores.

Clara sai de casa. Quando finalmente entra no carro e vai em direção à casa de André, Helena vai para o seu quarto e tranca-se com seus pensamentos. Começa a chorar, pois o medo de perder a filha é muito grande.

O carro passa em frente à casa de André, e ele entra no carro. Seguem para a casa de Marcela. Chegando lá, quando Clara pisa o pé para fora do carro, Helena sente uma dor fortíssima, como se fosse morrer. Pressentindo que algo realmente muito ruim iria acontecer naquele local.

— Não, minha filha não, MINHA FILHA NÃO! — Grita Helena desesperada.

A imagem vai perdendo a cor aos poucos. Um anjo esvoaçante passa pela tela e após a sua passagem, tudo se escurece.

TRILHA SONORA DISPONÍVEL!

20/01/2025

A Culpa dos Anjos – Primeiro Capítulo (20/01/2025)



novela de
 João Daniel

PRIMEIRO CAPÍTULO:

Santa Esperança, 1978

A cidadezinha de Santa Esperança parecia uma pintura em movimento. Tinha todo um charme, as casas ainda no estilo colonial, os lindos parques, as pessoas vivendo ali felizes com a tranquilidade do local. No entanto, nem tudo eram flores na cidade. Sob toda essa harmonia, havia as tensões de uma sociedade conservadora. 

Mais adiante surge a imagem da mansão da família Barros de Albuquerque, era linda, bem arborizada, parecia ter brilho próprio. Ali vivia Clara, uma moça de beleza cativante, mas o que realmente chamava a atenção era sua postura desafiadora. Apesar de ter crescido cercada por privilégios, era comunista ferrenha, pra época que vivia, era um absurdo uma moça ter ideais desse tipo.

Clara estava sentada numa cadeira de balanço na varanda do seu quarto, lia um livro, “Laços de Família” de Clarice Lispector, quando sua leitura foi interrompida pelo suave chamado de Janete, sua empregada e quase-mãe:

— Clara! O almoço já está pronto, minha linda, vamos pra sala de jantar? Sua mãe e seus irmãos estão à sua espera. — diz Janete.

— Já estou indo, Janetinha! Diga a eles que não demoro mais do que cinco minutos! — disse Clara já se levantando da cadeira.

— Estou indo dizer a eles. Cumpra sua palavra, hein, mocinha?

— Tá bom, Janetinha. Juro de pés juntos que chego em até cinco minutinhos.

Clara marca a página que estava a ler e fecha seu livro. Guarda-o na sua estante, já lotada de tantos livros. Ela é muito apegada a eles, mas decidiu que está mais do que na hora deles terem novos donos. Ela desce rapidamente as escadas e já vai em direção a mesa de jantar. Lá estão sua mãe, Helena, e seus três irmãos, Bernardo, Otávio e Renata.

— Uma boa tarde pra todos vocês, meus amores. Vamos comer? – diz Clara, empolgada.

— Meu Deus do céu! Você cumprindo com o horário, é o fim dos tempos mesmo, bem que o povo da igreja fala. — brinca Otávio.

— Nossa, como você é engraçadinho, meu irmão. Talvez hoje não seja o fim dos tempos, mas vou fazer o possível para que o fim do capitalismo esteja cada dia mais próximo. — retruca Clara.

— Você e essas suas ideias tortas, minha filha. Já te falei que isso ainda vai acabar mal. — diz Helena em tom de repreensão.

— Mãe, é um risco que eu aceito correr, não posso deixar as coisas como estão. Tenho que tentar mudar.

— Você que sabe, eu não digo mais nada. Só me preocupo com você.

— Sou bem grandinha já, mãe. Sei me defender muito bem sozinha. Agora deixe-me comer por que estou atrasada, preciso ir logo.

Após o almoço, Clara pega sua clássica mochilinha rosa, com panfletos e outras coisinhas, e vai ao encontro de seu namorado, o André, idealista como Clara. Helena não aceita muito bem o romance deles, mas, com o gênio que sua filha tem, acaba deixando quieto para evitar mais confusões.

— Meu amor! Que bom te ver. Sabe que vai ter a festa da Marcela amanhã, né? É as 19h. Vamos? — pergunta Clara.

— Estava sabendo sim, princesa. Só tenho que resolver uns assuntos do trabalho com meu pai. Amanhã quando terminar passo aqui e te busco.

— Ótimo. Vamos lá no Seu Lauro?

— Vamos!

Clara monta na bicicleta de André e juntos os dois partem ao encontro do bar de Seu Lauro. Chegando lá, ela cumprimenta a todos e começa a conversar com seus fiéis apoiadores. José Ferreira, um pescador local, obcecado por Clara em segredo, vem cumprimentar a jovem:

— Ora se não é a mais bela mulher dessa cidade, Clara Barros de Albuquerque. Prazer em vê-la novamente. — diz José.

— Obrigada pelos elogios, José. É um prazer vê-lo também. — responde Clara, dando um passo pra trás, intimidada pela energia ruim que emanava daquele homem.

Minutos depois, Clara se prepara para dizer seu discurso. Assim que começou a falar foi interrompida pelo Dr. Luiz, importante fazendeiro, o seu principal oponente.

— Vai fazer de novo esse discursinho, menina? Não cansa de passar vergonha se humilhando todo dia por umas migalhas de atenção de meia dúzia de pinguços? E ainda por cima vem com essa de sociedade igualitária. Coisa de tolo, como você. — provoca Luiz.

Clara suspira, chateada por estar vendo seus esforços para convencer indo por água abaixo. Mas não se deixa abalar e responde:

— Enquanto o senhor for esse encostado que vive da herança do pai, explora empregados, que impõe sua vontade aos outros, eu não acharei seus comentários dignos. Melhore antes de vir falar merda no meu ouvido.

— Minha paciência pra pessoas como você é curta, Clara. Espero que tenha culhão para enfrentar as consequências de seus atos. Se fosse você, me preparava.

André, ali no local, responde ao doutor, que já está quase saindo: 

— O senhor não pode ameaçar ela e simplesmente sair assim, como se não tivesse feito nada. Isso só mostra o quão covarde é, doutorzinho de araque. 

O Dr. sequer ouviu o que o rapaz disse, saiu antes. André abraçou Clara, e a confortou.

— Ele não vai poder fazer nada contra você, meu amor, eu não vou deixar. — afirma André.

— Obrigado amor. Com você me sinto protegida. — responde Clara.

Clara chegou a sentir um arrepio na espinha com a fala do Dr. Luiz. Viu ele indo embora e continuou seu discurso, mas com uma sensação muito ruim no peito.

No mais tardar da noite, Clara volta pra casa e já sobe direto para o seu quarto, toma um banho, e logo depois vai para a cama, quer descansar pois seu dia foi cheio. 

Pela madrugada, o silêncio na mansão da família Barros de Albuquerque é interrompido por um grito de dor de Helena. Clara acorda no mesmo instante e vai em direção à mãe para ver como ela está. Lá, Clara vê Helena sentada na cama em posição fetal e completamente assustada. Ela chega mais perto para perguntar à mãe o que houve: 

— Mãe, pelo amor de Deus, o que aconteceu? — Clara indaga preocupada.

— Eu sonhei com você... — Helena desaba aos prantos antes de dizer. 

— Sonhou o quê, mãe? Me responde!

— Você... Você estava morta, minha filha. Morta na minha frente!

A expressão facial de Clara vai mudando rapidamente após escutar tudo. Começou a chorar e abraçou forte a mãe.

— Não quero que você vá à festa da Marcela, Clara. Não tenho um bom pressentimento. Por favor, meu amor, não vá. — pede Helena com a voz embargada.

— Oh, mãe, entendo sua preocupação. Mas foi só um sonho. Não vai acontecer nada, fique tranquila.

No mesmo momento, Dr. Luiz está em sua casa, conversando com José: 

— Entendeu o que eu disse? Ou vou precisar te dar outra liçãozinha daquela? — diz Luiz, autoritário.

— Mas, doutor, isso não está certo, não quero... — José é interrompido por Luiz.

— Nem mais uma palavra, seu incompetente. Se não fizer o que combinamos, acabou pra você. De vez.

A imagem vai perdendo a cor aos poucos. Um anjo esvoaçante passa pela tela e após a sua passagem, tudo se escurece.

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Teia de Sedução - Capítulo 32 (Última Semana)