Capítulo 19:
CENA 01: MANSÃO FIGUEIRA/JARDIM/NOITE
INSTRUMENTAL: INEVITÁVEL - EDUARDO QUEIROZ, FELIPE ALEXANDRE
O silêncio continua no local, enquanto os fogos de artifício começam a fazer barulho.
TÉRCIO: Posso saber como foi que vocês conseguiram entrar aqui?
CECÍLIA: Pulamos o muro.
TÉRCIO (indignado): Como é que é? Sabia que eu posso chamar a polícia pra vocês e te processar por invasão?
CECÍLIA (cruza os braços): Pois então chama!
TÉRCIO: Você vai sair daqui agora!
Ele agarra no braço de Cecília, que se solta imediatamente.
CECÍLIA: Eu não vou sair daqui enquanto você não me der uma explicação.
TÉRCIO: Explicação? Que explicação, menina? Tá ficando louca? Eu nunca nem vi você em toda a minha vida.
CECÍLIA (olhando em volta): Tão vendo esse homem aqui, pessoal? Tão vendo esse empresário, poderoso, milionário? Ele é meu pai!
A câmera foca na reação de cada um dos convidados, que ficam chocados com a revelação.
LEILA: Mas que bobagem é essa que essa menina tá falando?
TÉRCIO (chocado): Pai? De onde você tirou isso, menina? Eu nem sei o seu nome!
CECÍLIA: Meu nome é Cecília. Cecília da Silva!
ISABEL (cochichando com uma amiga convidada, rindo): Que nome cafona!
Cecília começa a vasculhar em sua bolsa, até que acha uma foto de sua mãe e entrega para Tércio.
CECÍLIA: Essa aí é minha mãe, Margarida era o nome dela. (começa a chorar) Ela faleceu hoje, por problemas cardíacos. Foi tudo tão rápido… Ela mal teve tempo de se despedir de mim. Ela passou mal em casa, e eu a levei pro hospital. (T) Segundos antes de partir, ela disse o seu nome e disse que o senhor é o meu pai. Eu fiquei pensando nisso a tarde toda, tentando entender o que eu tinha acabado de ouvir, porque a vida inteira ela me disse que meu pai tinha morrido enquanto eu ainda tava na barriga. E só agora, prestes a morrer, ela decidiu contar tudo. Eu não sei se é verdade, mas não consegui tirar essa história da cabeça. E mesmo sem te conhecer, eu vim. Porque se você realmente for o meu pai, eu preciso saber o motivo por ter abandonado a gente. Só preciso saber se você conheceu essa mulher que tá na foto, a minha mãe. Só isso.
TÉRCIO (olhando fixamente a foto, tentando disfarçar ao lembrar de Margarida): Não sei do que você tá falando, menina… Essa mulher aí… seja lá quem for… pode ter inventado essa mentira aí. Gente desesperada costuma delirar.
CECÍLIA (com lágrima nos olhos, apontando o dedo na cara de Tércio): VOCÊ NÃO FALA ASSIM DA MINHA MÃE!
TÉRCIO (com um olhar de superioridade): Você não tem noção do que está fazendo, garota. Não me conhece, mal sabe quem sou eu. E ousa chegar aqui com essa historinha de desenho animado? Tá achando que vai conseguir o quê? O meu sobrenome? A minha empresa? Olha pra você. Olhe bem. Com essa roupa rasgada, essa cara de coitada… Parece que saiu de um buraco qualquer. Você não passa de uma golpista tentando subir na vida pelo caminho mais fácil. (se aproxima ainda mais, intimidando a mocinha) Mas comigo não, tá ouvindo? Comigo não! Agora fora da minha casa! FORA DAQUI! Antes que eu chame os seguranças.
CECÍLIA (deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, mas firme): Você se acha mesmo o todo poderoso, não é? Ou é só porque tá cercado de pessoas que se curvam à você? Se você pensa que eu vou sair daqui ofendida e humilhada por essas palavras que você disse, se enganou feio! Minha mãe me ensinou muito bem a não levar desaforo pra casa e eu aprendi muito bem com ela. Eu vim aqui só pra saber se tudo isso era verdade, mas quer saber? Se você fosse mesmo o meu pai, seria uma vergonha. É uma honra não ter que carregar o teu sobrenome nos meus documentos. E outra, eu não quero um centavo da sua herança. Faça bom aproveito!
Enquanto eles discutem, os convidados cochicham entre si, todos olhando atentamente para os dois.
CECÍLIA (olhando fixamente para Tércio): Vamos embora, Lurdinha. Eu não quero mais ficar um segundo nesse lugar.
Mesmo com todo mundo olhando, ela se vira e caminha em direção à saída com Lurdinha logo atrás. Até que…
ISABEL (andando até elas): Espera ai! Vai sair assim? Nem vai pedir desculpas por destruir o réveillon da minha família? Quanta falta de educação…
CECÍLIA (sem paciência): Sai da minha frente.
ISABEL (com desprezo): Você devia se olhar no espelho antes de sair inventando essas lorotas por aí. Olha pra você. Acha mesmo que alguém aqui ia acreditar que você é filha do meu pai?
LEANDRO: Isabel, não precisa disso. Ela tá falando a verda…
LURDINHA (interrompendo): Olha aqui, sua mocreia ridícula, quem você pensa que é pra tratar alguém assim?
CECÍLIA: Lurdinha, não vale a pena discutir isso daí. Vamos embora daqui agora, vem.
Cecília e Lurdinha se afastam e vão embora, em direção ao portão. De repente, Leandro caminha apressado, logo atrás, sem dizer nada.
ISABEL: Onde você tá indo, Leandro? Volta aqui!
Leandro ignora completamente. Enquanto isso, Tércio pede desculpas aos convidados, tentando disfarçar o constrangimento. Cortamos para Cecília e Lurdinha, que estão quase chegando ao portão principal.
LURDINHA: Eu devia ter arrancado os cabelos daquela nojenta! E aquele velho caquético, quem ele pensa que é pra falar daquele jeito com você?
Cecília se mantém em silêncio, mas abalada. De repente, Leandro surge atrás delas, gritando.
LEANDRO: Ei! Esperem!
As duas se viram imediatamente.
CECÍLIA: O que é que você quer? Veio aqui pra me humilhar também?
INSTRUMENTAL: DESENCONTRO - RODOLPHO REBUZZI, RENO DUARTE
LEANDRO: Calma. (T) Eu não vim aqui pra brigar ou julgar. Muito pelo contrário. Eu vim aqui pra pedir desculpas pelo o que aconteceu ali. Mil perdões por tudo o que seu Tércio e a Isabel disseram pra você.
CECÍLIA: Você é da família?
LEANDRO: Sim, eu sou noivo da Isabel, a moça que você discutiu ali quando saiu. (T) Eu não concordo nenhum pouco com esse tipo de ação que eles tiveram… E eu sei muito bem que você não tá mentindo.
CECÍLIA: Sabe? Como? Ah, já sei! Você ficou com pena de mim, né? Deve ter me achado uma morta de fome também.
LEANDRO: Você não tá me reconhecendo?
CECÍLIA: Como assim? A gente já se viu?
LEANDRO: Eu sou o médico que atendeu a sua mãe hoje… Quando vocês chegaram no hospital. Fui eu quem te deu a notícia da morte dela. E eu sinto muito, de verdade.
CECÍLIA (se lembrando): Meu Deus… claro! Agora me lembrei.
LEANDRO: Então, Cecília, eu sei muito bem que você não é uma golpista, pois eu vi com meus próprios olhos o quanto você sofreu pela morte dela lá no hospital. Imagino que não tá sendo fácil…
CECÍLIA: Não tá sendo mesmo… (T) Perdão, qual o seu nome?
LEANDRO: Leandro. Prazer.
Ele estende a mão para ela, que retribui o aperto.
LEANDRO: Eu vou falar com o seu Tércio e com a Isabel. Foi muito feio o que eles fizeram essa noite.
CECÍLIA: Eu que não devia ter vindo. Se arrependimento matasse…
LEANDRO: Fica tranquila. Se você for mesmo filha do seu Tércio, eu vou te ajudar. E mesmo que não seja, ninguém tem o direito de te tratar daquele jeito. Se tem uma coisa que eu não aceito nesse mundo, é injustiça.
CECÍLIA (emocionada): Obrigada… de verdade. Nem sei o que dizer.
LURDINHA: Cecília, vamos embora! Já são mais de meia-noite e eu não quero deixar minha tia preocupada.
CECÍLIA: Vamos, claro! (olhando para Leandro) Obrigada, viu? Você foi muito gentil, completamente o oposto daqueles dois!
Uma pequena troca de olhares acontece entre Cecília e Leandro. Lurdinha já segue alguns passos adiante, impaciente. Cecília então se vira e vai atrás da amiga. Enquanto os convidados vão embora ainda cochichando sobre o ocorrido e passam por Leandro, Isabel o acha e vai até ele.
ISABEL: Tá fazendo o que aqui, meu amor? Fiquei que nem uma louca te procurando no jardim.
Isabel tenta beijá-lo, mas ele se esquiva.
LEANDRO: Isabel, eu não gostei nenhum pouco do que vocês fizeram hoje. Precisava tratar a moça daquele jeito? Humilhar ela na frente de todo mundo?
ISABEL: Não vai me dizer que você vai ficar do lado daquela golpista…
LEANDRO: Eu não tô do lado de ninguém, Isabel. Eu só não concordo com a maneira que você falou com ela! Tudo bem que ela invadiu a casa, chegou de uma forma completamente incorreta, mas o certo era ir para dentro e conversar civilizadamente. E outra, ela nem tá falando mentira.
ISABEL: Como assim?
CENA 02: MANSÃO FIGUEIRA/SALA/NOITE
A família está toda reunida na sala. Tércio está sentado no sofá e Leila está atrás dele, fazendo uma massagem em seus ombros.
LEILA: Aquela mocinha conseguiu espantar todos os convidados de uma vez só! Impressionante como começamos o ano já com o pé esquerdo. A imprensa toda vai falar amanhã.
TÉRCIO: Não vai. Eu vou dar um jeito de calar a boca deles, pode ficar tranquila.
LEANDRO: Seu Tércio, aquela moça não tava mentindo sobre a mãe. Eu posso tá muito enganado, mas provavelmente ela não veio aqui pra dar o golpe como vocês pensam.
TÉRCIO: Como assim?
LEANDRO: Pois é. Eu decidi não contar nada na hora, pra não aumentar ainda mais o clima que se formou. Mas sim, realmente a mãe daquela moça faleceu hoje de manhã no hospital. Eu tive acesso a ficha dela e tudo. O nome dela era Margarida da Silva, e… bate com tudo o que a garota falou.
ISABEL (cruza os braços e revira os olhos, debochada): Pois eu ainda acho que essa morta de fome apareceu aqui só pra tentar dar o golpe, sim. Ela viu que a gente vive saindo em jornais, revistas e não resistiu.
LEANDRO: Isabel, por favor… Agora não é hora.
TÉRCIO (pensativo): Olha… eu não sei se devo contar, mas… Eu reconheci sim a mulher da foto que a Cecília me mostrou. A verdade é que, sim.. eu tive um romance com ela, muitos anos atrás.
LEILA (para de massageá-lo, gelando, e dá um passo para trás): Como é que é? Então existe mesmo a possibilidade dessa menina ser sua filha?
LEANDRO (surpreso, encarando Tércio): Então por que fez aquele show todo no jardim, seu Tércio?
TÉRCIO: Foi no impulso… eu fui tomado por uma mistura de medo, surpresa, e.. vergonha, claro. Tava todo mundo ali. Eu pensei que, se negasse ali mesmo, seria mais fácil de lidar depois. Mas agora… agora eu vejo que errei, realmente. Não devia ter falado daquele jeito com a moça.
ISABEL (indignada): Ah, pronto! Agora vai começar a choradeira por causa de uma anônima?
TÉRCIO: Leandro, pode me acompanhar até meu escritório, por favor? Preciso conversar com você. À sós.
LEANDRO: Claro.
CENA 03: MANSÃO FIGUEIRA/ESCRITÓRIO/NOITE
Tércio entra no escritório, seguido por Leandro. Tércio fecha a porta e gira a chave discretamente, logo depois se vira para o genro, com o semblante sério.
LEANDRO: E então, seu Tércio, me chamou aqui por qual motivo?
TÉRCIO: Leandro, eu tô tão perturbado com tudo o que houve aqui… Não deveria ter feito o que fiz com a moça.
LEANDRO: Realmente, seu Tércio, eu nunca tinha visto esse seu lado.
TÉRCIO: Eu me senti constrangido no meio de todo mundo… Pra parecer forte, eu reagi da pior maneira possível. Enfim, eu fui cruel. Mas agora eu quero reparar esse erro. Leandro… pode ser que não, mas aquela moça é muito parecida comigo.
LEANDRO: O senhor reconheceu a mulher da foto, então?
TÉRCIO: Claro, claro! Aquela mulher, a Margarida… eu tive um breve romance com ela anos atrás. Enfim, não vou entrar em detalhes.
LEANDRO: Mas houve algum sentimento entre vocês?
TÉRCIO: Bom, da minha parte… confesso que não. A minha paixão sempre foi a Leila. A gente tava separado fazia meses. E como eu só queria curtir, acabei conhecendo a Margarida e fui me envolvendo com ela. Até que, tempos depois, Leila apareceu com a Isabel já nascida, dizendo que era minha filha. Então eu voltei pra ela e nos casamos. Mas, por favor, não conta nada disso pra ela, Isabel não sabe dessa história.
LEANDRO (rindo): Ah, então não é a primeira vez que isso acontece?
TÉRCIO: Vamos parar de conversa fiada e vamos logo para o que interessa. (T) Leandro, pra me desculpar com a Cecília, eu queria a sua ajuda.
LEANDRO: Minha ajuda?
TÉRCIO: Sim. Você disse que atendeu a Margarida no hospital quando ela chegou até lá, não foi?
LEANDRO: Foi.
TÉRCIO: Então… você deve saber onde a Cecília mora. Deve ter ficado o endereço dela na ficha.
LEANDRO: Seu Tércio, o senhor sabe que isso é extremamente sigiloso, né? Eu não posso simplesmente vazar esse tipo de informação.
TÉRCIO: Eu entendo. Mas eu só quero uma chance de me desculpar com ela, de olhar nos olhos dela e pedir perdão por tudo o que disse. Se ela for mesmo a minha filha, eu não posso deixar as coisas desse jeito.
LEANDRO (respira fundo): Tá. Eu vou tá de plantão no feriado… vou dar uma olhada na ficha pro senhor. Mas olha, eu não garanto nada.
TÉRCIO: Muito obrigado, meu genro! Tudo o que eu mais quero agora é reparar esse grande erro que cometi.
AMANHECE
Ao som de “Chega Mais - Rita Lee”, o sol nasce forte no Rio de Janeiro, que recebe 1979 de braços abertos. A praia está lotada no feriado, e o movimento nas ruas é constante. O dia já começa assim:
A família Figueira comenta sobre o ocorrido na noite anterior; Tércio usou sua influência e seu dinheiro para impedir que qualquer notícia sobre o escândalo fosse divulgada; Cecília chora nos braços de Lurdinha ao se lembrar do que aconteceu.
CENA 04: APARTAMENTO DE LUXO/INT./MANHÃ
Sr. Alberto, um homem mais velho e bem vestido, fecha a mala apressado para uma viagem para os Estados Unidos. Ivani, vestindo um pijama elegante e com o cigarro entre os dedos, se aproxima.
IVANI: Ai, eu amei tanto a nossa noite de Réveillon! Foi muito bom virar o ano junto com você nessa cama confortável. Você já é um coroa, mas ainda é tão suculento…
Ele a observa com um sorriso satisfeito. Para ele, Ivani é apenas uma amante sofisticada, sem desconfiar de seu verdadeiro trabalho.
SR. ALBERTO: Fico feliz que tenha gostado! Mas minha mulher nem pode desconfiar, hein? Pra ela, eu já estou fora desde ontem à noite.
IVANI (fingindo inocência): Indo pros States de novo, é?
SR. ALBERTO: Pois é. Vou ficar três semanas fora. Trabalhando, trabalhando e trabalhando.
IVANI: Vou sentir tanta falta de você, desse seu corpo peludo…
Sr. Alberto solta uma risadinha sem graça.
IVANI (massageando o edredom, olhando ao redor): E esse apartamento lindo vai ficar aqui às moscas? Que desperdício!
SR. ALBERTO: Tá querendo dizer o que com isso, hein?
IVANI (se aproximando): Você bem que podia me deixar ficar aqui até você voltar... Minha casa tá uma bagunça, amanhã mesmo já vão começar as reformas. Sabe como é, né? Poeira pra todo lado…
SR. ALBERTO (hesitando): Ivani…
IVANI: Você não confia em mim? A gente já se encontra aqui há anos, Alberto. E outra, sua mulher nem sabe da existência desse apartamento. (implorando) Por favor, eu prometo que vou cuidar dele como se fosse meu.
Ele sorri e entrega a chave, rendido. Ivani dá pulos de alegria e o enche de beijos. Em seguida, eles se despedem e ela comemora com um sorriso cheio de segundas intenções.
IVANI (rindo): Agora é só mandar o bilhetinho!
HORAS DEPOIS…
CENA 05: CASA DE CECÍLIA/INT./TARDE
Cecília e Lurdinha assistem televisão na sala, distraídas. De repente, ouvem um barulho no portão.
LURDINHA: Ué, quem será?
Lurdinha se levanta, atravessa a sala, abre a porta e se depara com um envelope jogado no chão, bem na entrada.
LURDINHA (voltando com o papel na mão): Jogaram isso aqui. Deve ser pra você.
CECÍLIA (assustada): Pra mim?
Cecília pega o envelope, desconfiada, mas abre e lê em silêncio. Sua expressão muda.
CECÍLIA (em choque): “Essa carta é sobre sua mãe, Margarida. Eu sou uma velha amiga que sabia de todos os seus segredos. Se quiser me conhecer, compareça hoje às 21h no endereço abaixo. Vá sozinha.”
LURDINHA: Mas que palhaçada é essa? É claro que você não vai, né? E se for um golpe? Um sequestro?
CECÍLIA: Não é, Lurdinha. Não é, eu tenho certeza. A minha mãe escondia algo e eu preciso saber o que é. E se for, sei lá, sobre o meu pai?
LURDINHA: Pois então eu vou com você! Não vou deixar que vá nesse endereço desconhecido sozinha.
ANOITECE
São mostradas imagens do Rio de Janeiro ao som de “Hold the Line - TOTO”. Cortamos para a fachada do prédio onde Ivani está.
CENA 06: APARTAMENTO DE LUXO/INT./NOITE
INSTRUMENTAL: ED S THEME - IURI CUNHA
Ivani abre a porta e se depara com Inácio.
INÁCIO: Como é que você conseguiu esse apartamento, sua louca?
IVANI: Ué, tá achando que é só você que pode dar o golpe nos outros? Eu tenho meus meios de conseguir o que eu quero.
INÁCIO: Não vale nada mesmo, hein? Aposto que tá dando o golpe num velhote qualquer que achou na rua.
IVANI: Se você acha… (se aproximando) Inácio, não acha melhor a gente parar de brigar um pouquinho? Sempre que nos encontramos, é isso. Saudades do antigo Inácio, que acariciava meus cabelos, que me beijava apaixonado, que fazia várias juras de amor…
INÁCIO (falando no pé do ouvido dela): Pois aquele Inácio continua aqui.
IVANI: Ah, é? Então me prova!
Os dois começam a se beijar intensamente. Enquanto isso, Lurdinha e Cecília sobem o elevador, apreensivas. Finalmente elas chegam no andar descrito no bilhete e vão até o número do apartamento.
LURDINHA: 206 é aqui, Cecília!
Elas tocam a campainha. Lá dentro, Ivani, deitada no sofá com Inácio, ouve a campainha e ignora com desdém.
IVANI: Deixa tocar…. deve ser engano. Ninguém sabe que eu tô aqui.
Eles continuam se agarrando no sofá, sem perceber que a porta não encostou e ficou entreaberta (de propósito por Ivani). Cecília toca a campainha mais uma vez.
CECÍLIA (nervosa): E se for uma emboscada, Lurdinha?
LURDINHA: Pera aí… a porta tá aberta?
Elas entram com cautela e param, chocadas, ao ver Inácio e Ivani no sofá, seminus e se beijando intensamente.
CECÍLIA (em choque): Inácio?!
Ivani e Inácio se levantam imediatamente, assustados. A câmera intercala entre todos os personagens em cena.
CONGELAMENTO EM INÁCIO.
A novela encerra seu 3° capítulo ao som do refrão de “Chega Mais - Rita Lee”. (Tema de Ivani)
CENA 01: CEMITÉRIO/TARDE
SONOPLASTIA: CONFLITOS - NANI PEREIRA
Imagens do cemitério visto de cima ao som de um instrumental triste. O corpo de Margarida acaba de ser enterrado. Cecília, Lurdinha, Inácio e outros conhecidos de Margarida caminham de volta para a rua, todos abalados com a morte da mãe da nossa mocinha. Cecília chora intensamente, sendo consolada pela amiga e pelo noivo.
CENA 02: CASA DE CECÍLIA/INT./TARDE
Ao abrir a porta de sua casa, Cecília desaba em lágrimas e cai de joelhos, desolada. Lurdinha e Inácio se apressam para ajudá-la. Corte. Minutos depois, os três estão sentados à mesa. Cecília, com um semblante abatido, está calada.
INÁCIO: Meu amor… eu sei que é difícil, mas a vida tem que seguir agora. Ficar chorando não vai trazer sua mãe de volta. (Pausa) Coitada, esperou pra morrer logo no último dia do ano...
LURDINHA (olha pra ele, indignada): Inácio! Pelo amor de Deus, você não tá vendo que Cecília acabou de perder a mãe? Quanta indelicadeza da sua parte!
CECÍLIA (com os olhos marejados e voz embargada):
Eu não sei o que vai ser da minha vida a partir de agora. Minha mãe sempre foi tudo pra mim. (pausa, tentando segurar o choro) Eu tô destruída. Completamente destruída. Nunca imaginei que passaria por isso tão cedo. (respira fundo) E agora? O que vai ser de mim? Acabou tudo. Acabou meu ano, acabou meu réveillon, acabou o pouco de esperança que ainda me restava. (a voz falha e ela chora mais intensamente) Acabou.
LURDINHA (emocionada):
Não… não acabou, não. Eu tô aqui. Eu tô aqui do seu lado, Cecília. Sempre.
CECÍLIA: Vocês não imaginam a dor que eu tô sentindo nesse momento. Parece que uma parte de mim se foi junto com ela. (T) Por quê? Por que ela me deixou? Logo agora que a arritmia dela já tava controlada…
Lurdinha se aproxima e segura a mão de Cecília com carinho. Inácio observa em silêncio.
CECÍLIA (continuando, com a voz embargada): A gente tinha tantos planos… Ela queria voltar a estudar. Sonhava em um dia abrir uma lojinha de tecidos, só nossa…
Lurdinha acaricia os cabelos de Cecília, emocionada.
LURDINHA: Ela te amava mais do que tudo, minha amiga. E eu tenho certeza que ela foi em paz, sabendo que você fez tudo o que podia por ela.
INÁCIO (tentando consolar): Você foi uma filha maravilhosa, meu amor. Cê fez o que pôde.
CECÍLIA: Agora eu tô sozinha. Só tenho vocês dois…
LURDINHA: E isso nunca vai mudar. Eu sou sua família também, Cecília. E você vai dar a volta por cima. Vai viver, vai ser feliz… por ela. (T) Olha, se quiser você pode morar na minha casa a partir de agora. Ficar aqui sozinha não vai te fazer bem, ainda mais com aquela história de despejo…
INÁCIO: Se quiser ir pra minha, Cecília…
CECÍLIA: Eu agradeço, meu amor, mas vou ficar na casa da Lurdinha por enquanto. Mas é só até esse vendaval todo passar e eu conseguir um emprego. Se bem que até lá, a casa já vai estar ocupada, já que tão expulsando a gente daqui…
INÁCIO (mentindo): Bom, infelizmente vou ter que voltar pro clube e deixar vocês. (se aproxima de Cecília) Jura pra mim que você vai ficar bem?
CECÍLIA: Vou tentar.
LURDINHA: Cecília tá em boas mãos, Inácio. Não precisa se preocupar.
INÁCIO: Então eu vou. Prometo que amanhã venho pra cá cedinho só pra ficar com você. Feliz ano novo, meu amor.
Inácio dá um forte abraço em sua noiva e, em seguida, se retira da casa de Cecília.
LURDINHA: Esse seu noivo… acho ele bem indelicado, às vezes. Não gostei do jeito que ele falou quando chegou.
CECÍLIA: É o jeito do Inácio, Lurdinha. Deixa ele.
LURDINHA: Bom, agora vou preparar um chá pra você se acalmar. Pode ficar tranquila que eu vou ficar do seu lado sempre, Cecília. Você é minha amiga, minha irmã. Acalma esse coraçãozinho, que a dona Margarida já tá num bom lugar... olhando você com orgulho lá de cima.
CECÍLIA: Eu te amo tanto, minha amiga. Vou ser sempre grata por tudo o que você tá fazendo por mim. (T) Lurdinha... eu preciso te contar uma coisa.
LURDINHA (preocupada): O que foi?
SONOPLASTIA: ÚLTIMO SUSPIRO - EDUARDO QUEIROZ, BIBI CAVALCANTE
CECÍLIA: Bom… minutos antes da minha mãe falecer... ela me disse uma coisa que não sai da minha cabeça.
LURDINHA: O quê? É algo importante?
CECÍLIA: Nem sei se posso contar...
LURDINHA: Fala logo!
CECÍLIA: Ela me disse que… Ela me disse que meu pai tá vivo. E pediu pra eu ir atrás dele.
LURDINHA: Pai? Como assim? Cecília, pelo o que eu sei, seu pai morreu enquanto sua mãe estava grávida de você.
CECÍLIA: Pois é, eu também acreditava nessa história... Mas não, meu pai tá vivo, Lurdinha. Minha mãe me disse com todas as letras.
LURDINHA: E ela te falou o nome dele pelo menos? Como é que você vai atrás de alguém sem saber o nome da pessoa?
CECÍLIA (tentando se lembrar): Tarcilio… Terêncio.. Tércio! Isso. Tércio Figueira! Foi esse o nome que minha mãe me disse.
LURDINHA: Tércio Figueira? Esse nome não é estranho… (T) Claro!
CECÍLIA: O que foi, Lurdinha?
LURDINHA: Eu posso tá muito enganada, Cecília, mas esse Tércio Figueira aí é um dos homens mais ricos do país. Se for mesmo quem eu tô pensando, ele é dono da Idearium Publicidades, aquela agência famosa daqui do Rio. Eles fazem campanha pra tudo quanto é marca grande. Perfume, carro, banco… Vive saindo matérias sobre eles em jornais, revistas... É coisa de outro mundo, menina. E se for ele mesmo… eu sei onde ele mora.
CECÍLIA: E como é que eu vou chegar até esse homem?
LURDINHA: Eu tenho um plano em mente. Confia em mim.
Cortamos para paisagens do Rio de Janeiro ao som de “Hot Stuff - Donna Summer”. A câmera sobrevoa o Cristo Redentor e, em seguida, a praia de Copacabana. Corte. A câmera passa a seguir um carro conversível vermelho que trafega pelas avenidas da cidade (é o carro de Isabel). A música também toca em seu veículo, e ela se diverte, cantando e balançando a cabeça enquanto dirige. O carro estaciona em frente ao Hospital da União, onde Leandro trabalha. Isabel desce do carro e segue em direção à entrada.
CENA 03: HOSPITAL DA UNIÃO/INT./TARDE
Leandro caminha apressado pelo corredor do hospital. Ao virar, dá de cara com Isabel parada ali. Surpreso, ele se aproxima da noiva
LEANDRO: Isabel?
ISABEL: Até que enfim! Será que o doutor tem cinco minutos pra mim hoje?
LEANDRO: O que foi? Você nunca aparece por aqui… Tá tudo bem?
ISABEL: Não, não tá tudo bem! Porque eu tenho um noivo que some, que mal me telefona e quando se comunica, é pra dizer que tá cansado. Diz que me ama, mas passa mais tempo com o seu pai nesse hospital do que comigo.
LEANDRO: Lá vem você de novo com esse drama… Olha, eu não tô com cabeça hoje. Acabei de perder uma paciente. Enfim…
ISABEL: Não é drama, Leandro! É carência. É saudade. É raiva também, porque você me prometeu que o trabalho nunca ia afastar a gente.
LEANDRO: Você sabe que tá exagerando, né? Meu trabalho tá puxado, sim, mas você é minha prioridade. Sempre foi. Só que eu não consigo estar em todos os lugares ao mesmo tempo, meu amor. Bem que eu queria, mas…
ISABEL: Eu só queria me sentir mais perto de você.
LEANDRO: Você tá aqui, Isabel. Tá comigo. Mesmo quando a gente não se vê, eu penso em você o tempo todo.
ISABEL: Devia era pensar em mim na hora do almoço. A gente quase não se encontra mais... E o casamento tá logo aí, Leandro. Só mais dois meses! A gente devia tá vivendo esse momento juntos, não cada um pra um lado.
LEANDRO: Eu sei. Eu também queria que fosse diferente. Queria poder passar o dia todo do teu lado, ouvindo disco, dormindo de conchinha, curtindo na praia... Mas agora eu tô nesse turbilhão. E tô tentando ser tudo ao mesmo tempo. O médico que meu pai espera, o homem que você merece, o marido que você vai ter...
ISABEL: Você já é tudo isso. Mas me promete que não vai me deixar? Eu amo você, Leandro. Acho que a palavra amor é até pouco pra descrever o que eu sinto por você…
LEANDRO: Eu nunca vou te deixar, meu amor. Nunca. Eu também amo você, de montão. E pra provar, vou tentar sair mais cedo hoje. Quero entrar em 1979 com você nos meus braços.
ISABEL: Ai, que alívio! Pensei que fosse ter plantão hoje.
UBALDO (gritando de longe): Leandro!
LEANDRO: Bom, deixa eu ir. Meu pai tá chamando.
ISABEL: Vai. Vai lá.
Eles se beijam.
ISABEL: Te espero a noite, hein? Quero que seja o melhor réveillon de nossas vidas.
LEANDRO: Vai ser. Com certeza.
Eles se beijam novamente. Logo depois, Leandro sai em direção a sala do pai, deixando Isabel no corredor, que sai em direção à saída.
CENA 03: CASA DE CECÍLIA/INT./TARDE
Lurdinha contou a Cecília seu plano de invadir a mansão de Tércio Figueira durante a festa de Réveillon. De início, Cecília não gostou nada da ideia.
CECÍLIA: Eu acho essa ideia muito arriscada, Lurdinha. Eles podem confundir a gente com bandidas e acabar levando a gente pra cadeia. Já pensou?
LURDINHA: Seu pai não faria isso com você, Cecília. Pensa bem, você indo até a casa dele, ele vai ver com os próprios olhos quem você é, e vai ser um choque pra ele saber que tem uma filha fora do casamento. E outra, Cecília, você tá precisando de grana, lembra?
CECÍLIA: E eu lá quero depender do meu pai pra ter dinheiro? Eu quero subir na vida com muito esforço, com o meu suor. Se eu for atrás desse tal Tércio, não vai ser por dinheiro, não. Eu só preciso de uma explicação, Lurdinha. Se esse homem for mesmo o meu pai, eu preciso saber por que ele abandonou a mim e à minha mãe.
LURDINHA: Então quer dizer que você vai?
CECÍLIA (respira fundo): Não sei… tá tudo muito recente ainda. Minha mãe acabou de partir, e acho que seria uma grande falta de respeito com ela.
LURDINHA: Ué, mas foi a própria dona Margarida quem pediu pra você ir atrás desse homem, não foi? Pensa, Cecília… você cresceu a vida inteira achando que não tinha pai. Passou por tanta coisa sozinha, ralando, se virando. E agora descobre que pode ter um pai milionário? Isso é uma injustiça!
CECÍLIA: Injustiça?
LURDINHA: Claro que é! Você, que sempre correu atrás de tudo, batalhou por cada centavo, cuidou da sua mãe sozinha… Se ele for mesmo seu pai, você tem mais é que cobrar o que é seu por direito!
CECÍLIA: Vai ver ele nem sabe da minha existência, Lurdinha.
LURDINHA: É. Provavelmente ele não sabe mesmo. Mas vai saber. (T) Se ele for homem de verdade, vai ouvir a sua história e vai entender que tem uma filha que tem direito a tudo o que ele tem.
CECÍLIA: É, você tem razão. Eu vou até ele. Quero saber detalhe por detalhe.
LURDINHA: Assim que se fala, mulher!
Corte. São exibidas imagens do Rio de Janeiro ao som de “A Noite Vai Chegar - Lady Zu”. A câmera passa entre carros e pedestres nas ruas movimentadas da cidade.
CENA 04: SHOPPING/INT./TARDE
Inácio está sentado numa cadeira de um café do shopping, enquanto espera alguém. Minutos depois, Ivani chega e se senta à mesa disfarçadamente.
SONOPLASTIA: DENSIDADE - EDUARDO QUEIROZ
IVANI: O que foi? Me chamou aqui pra quê? Se arrependeu de ter falado tudo aquilo pra mim? (T) Ué, que cara é essa, Inácio?
INÁCIO: A mãe da Cecília faleceu hoje. O corpo acabou de ser enterrado.
IVANI (desdenhando): Ah, era isso? E o que é que eu tenho a ver com essa história?
INÁCIO: Poxa, Ivani, eu só queria que você me desse uma força agora nesse momento tão difícil, pô… Tô aqui me abrindo pra você.
IVANI: Eu? (ela ri, debochando) Você se esqueceu do jeito que falou comigo hoje mais cedo, Inácio? Você me tratou feito uma vagabunda! Eu não esqueci, tá? E outra, por que não vai lá dar forças pra sua noivinha querida? É ela quem tá precisando de forças, não você. Nem sei por que tá tão abatido, você nem gostava da sogrinha. Desculpa, mas não dá pra acreditar nesse seu teatro.
INÁCIO (se irrita): Ah, vai ver se eu tô lá na esquina! Não tô pedindo pra ninguém acreditar em mim.
IVANI: Isso é jeito de falar comigo? Esqueceu que eu posso contar tudo pra Cecília se eu quiser? Já é a segunda vez hoje que você me desrespeita.
INÁCIO: Você teria essa coragem? Olha aqui, Ivani, se você tiver tramando alguma coisa…
IVANI (interrompe): Vai acontecer o que? Vai me matar? Olha aqui, Inácio, eu não sou marionete pra ficar na sua mão não, tá ok? Você me prometeu que iria terminar o seu noivado o quanto antes pra ficar comigo e até agora só ficou na promessa.
INÁCIO: Eu vou, Ivani, eu vou. Mas neste momento é praticamente impossível. Cecília acabou de perder a mãe.
IVANI: Já disse que eu não tenho nada a ver com isso. Ou você termina tudo com aquela songa monga até nas próximas horas, ou eu vou contar tudo pra ela do nosso caso!
Séria, Ivani encara o Inácio com um olhar de ameaça. Alternamos com ele, que deixa transparecer o medo em seu olhar.
IVANI: Tá avisado!
Irritada, ela se levanta bruscamente e sai do local, sem ao menos olhar para trás. Focamos em Inácio, que dá um leve soco na mesa. Corte. Mostramos a transição do fim de tarde para a noite com várias imagens do Rio de Janeiro ao som de “O Barquinho - Nara Leão”.
CENA 05: CASA DE CECÍLIA/INT./NOITE
Cecília se olha no espelho, ajeitando o cabelo com as mãos. Lurdinha surge no quarto, apressada.
LURDINHA: Cecília… você tá se olhando nesse espelho faz quase meia hora. Vamos logo, mulher. A gente vai ter que pegar dois ônibus ainda.
CECÍLIA (tensa): Acha mesmo que ele vai acreditar em mim? Eu tenho medo de ser confundida com uma golpista e ser enxotada daquela casa a pontapés.
LURDINHA: Eu jamais vou permitir que alguém te trate mal! Agora vamos que já perdemos tempo demais.
Elas saem do quarto, apressadas.
CENA 06: MANSÃO FIGUEIRA/NOITE
A câmera sobrevoa sobre a mansão, que está competente iluminada. Convidados elegantes circulam pelo jardim com taças de champagne nas mãos. “Boogie Oogie Oogie - A Taste Of Honey” toca no ambiente. No Jardim, em meio aos convidados, Isabel e Leandro dançam lentamente, abraçados.
ISABEL: Tô amando passar essa noite com você, meu amor. Depois de tantos meses com você ausente…
LEANDRO: Vai colocar a culpa em mim agora? Isso você tem que reclamar com meu pai. Nem folga ele me deixa ter.
ISABEL: Deixa isso pra lá. O que importa agora é que eu tô com você, e quero continuar por muitos e muitos anos, até quando estiver bem velhinha.
LEANDRO (solta uma leve risada); Não acha que tá muito adiantada, não? Se acalma aí, pô.
ISABEL: Meu amor, você não sabe o quanto eu tô ansiosa pro nosso casamento. Não vejo a hora de entrar naquele altar vestida de branco, o véu se arrastando pelo corredor da igreja... Quero que esses dois meses passem voando.
LEANDRO: Então se prepara porque depois do casamento, você não vai se ver livre de mim tão cedo. Toda essa ausência minha vai ser compensada, te garanto. (T) Bom, agora vamo parar de pensar no futuro e aproveitar esse momento incrível que a gente tá vivendo aqui.
Os dois começam a se beijar intensamente. Cortamos para Paulina e Leila, que observam a cena de longe, cada uma segurando uma taça.
LEILA: Olha lá como estão tão apaixonados! Eu torço tanto pelo amor desses dois…
Paulina não responde, apenas continua a observar, com uma expressão nada agradável. Enquanto “Let's Groove - Earth, Wind & Fire” toca no ambiente, cortamos para outro local do jardim, onde Tércio e Ubaldo estão cercados por um grupo de amigos empresários.
EMPRESÁRIO 1: Com todo esse império que você construiu, Tércio, já tá na hora de pensar no seu sucessor, não acha?
TÉRCIO (sorri, irônico): Se você tiver alguém em mente, me avisa.
EMPRESÁRIO 2: E Isabel? Não vai querer assumir a empresa?
TÉRCIO: Isabel… bem, ela não tem cabeça para os negócios. Gosta de festas e de aparecer, mas de gestão e estratégias, não entende nada.
EMPRESÁRIO 1 (brinca): Então, sobrou para o Leandro. É ele quem vai ser o sucessor?
UBALDO: Nem brincando! Pode ir tirando o cavalo da chuva. Ninguém tira o meu filho da medicina. Leandro vai cuidar de gente, não de empresa.
TÉRCIO (ri): E se algum dia ele mudar de ideia?
UBALDO: Não se preocupe. Leandro não tem a menor intenção de entrar nesse mundo. Se ele quisesse, já tinha feito isso, mas a medicina é o que ele ama. É o que ele escolheu.
TÉRCIO: Bom, então o jeito vai ser colocar o cachorro da família pra administrar a Idearium.
Todos riem.
HORAS DEPOIS…
Já são 23h45, apenas quinze minutos para a virada do ano. Lurdinha e Cecília ainda não chegaram na mansão. Enquanto isso, a família Figueira se prepara para a grande virada no jardim assistindo o show da cantora estadunidense Elise Mercury (Dua Lipa), contratada por Tércio especialmente para impressionar os convidados da alta sociedade carioca. Tércio sorri com orgulho ao lado de Leila.
LEILA: Pra ser sincera, até eu me surpreendi com tudo isso aqui que você planejou. Não sabia que tinha tanta grana assim.
TÉRCIO: Isso tudo é pra você, minha esposa querida.
LEILA (desconfiada): Será mesmo? (Ela cruza os braços) Tércio, fala a verdade. Tudo isso foi pra sair em tudo quanto é jornal amanhã. Não é?
TÉRCIO: Claro que não, Leila. Eu… eu quis que fosse algo grandioso, algo que mostrasse o quanto celebrar a vida vale a pena. E claro, foi pra agradar você e a nossa filha também, minha querida.
23h55. Faltam apenas cinco minutos para a chegada do ano novo. Finalmente, o ônibus onde Cecília e Lurdinha estão, para a alguns metros do portão da mansão. As duas descem com pressa, suadas e exaustas. As luzes da festa podem ser vistas de longe, iluminando o céu.
LURDINHA (olhando para o céu, encantada): Meu Deus do céu, Cecília… olha aquilo. Parece até coisa de novela das oito. Que luxo!
CECÍLIA: Você tem certeza que é aqui mesmo, Lurdinha?
LURDINHA: Claro. Meu amor, eu já vi a fachada dessa mansão milhares de vezes nos jornais. (T) Eita… acho que a gente tem um problema.
CECÍLIA: O que?
LURDINHA: Olha lá. Dois seguranças na entrada.
CECÍLIA (encarando os seguranças): Droga… e agora?
LURDINHA: Nem adianta a gente pedir pra entrar, eles não vão entender. E olha só o tamanho daqueles dois…
CECÍLIA (respira fundo, inquieta): Eu não vim até aqui pra desistir na porta. Depois de tudo o que a gente passou dentro daquele ônibus desagradável…
LURDINHA (olhando ao redor): Tem outro jeito. Se a gente conseguir entrar pelos fundos… eu lembro de uma rua que beira a lateral da mansão. Tem um muro mais baixo.
CECÍLIA: E como é que você sabe disso?
LURDINHA: Meu amor, eu leio jornais, já disse. Essa família vive saindo em tudo quanto é coluna social, e a mansão não é diferente.
CECÍLIA: Pera aí, você tá querendo que a gente pule o muro da mansão?
LURDINHA: Esse é o único jeito que você vai ter de falar com seu pai. Ou se quiser, podemos ir embora agora.
Cecília olha novamente para os seguranças, pensativa, até que se decide.
CECÍLIA (decidida): Mostra o caminho.
SONOPLASTIA: CORROSIVA - EDUARDO QUEIROZ, FELIPE ALEXANDRE
23h59. Enquanto Lurdinha e Cecília vão até o muro, a família Figueira e os convidados se preparam para a contagem regressiva, ansiosos para a chegada do ano novo. A cantora Elise Mercury que irá fazer a contagem.
ELISE: Ladies and gentlemen… the time is coming! (Senhoras e senhores… está chegando a hora!)
Focamos em todos os personagens da novela em cena, que aguardam a chegada de 1979 ansiosamente. Enquanto isso, Cecília e Lurdinha conseguem pular o muro. O vestido de Cecília acaba rasgando quando ela se enrosca num arbusto, mas ela não liga e segue em frente, em direção ao jardim.
ELISE: TEN, NINE, EIGHT, SEVEN, SIX…
Nesse momento, Cecília e Lurdinha chegam até a multidão.
CECÍLIA (gritando e começando a chamar a atenção dos convidados): TÉRCIO! TÉRCIO FIGUEIRA!!
Cecília acaba interrompendo a contagem regressiva, fazendo todos se virarem para ela imediatamente. Um silêncio constrangedor toma conta do jardim, quebrando o clima festivo.
LEILA (indignada): Mas o que é isso? Quem é essa louca?
CECÍLIA: TÉRCIO! Eu preciso falar com você agora! Aparece!
TÉRCIO (sem disfarçar o incômodo): Sou eu, menina! Como conseguiu entrar aqui? Quem é você?
ISABEL: Maldita hora pra essa doida aparecer! Deve ser só mais uma morta de fome, meu pai. Chama os seguranças!
CECÍLIA: Cala a sua boca que eu vim aqui pra falar com ele, não com você!
Isabel fica boquiaberta com a resposta de Cecília, que encara Tércio, olhando diretamente nos olhos dele. A câmera intercala entre os dois, enquanto todos os convidados olham a cena ao fundo, paralisados, em meio ao silêncio que se instaura no local.
CONGELAMENTO EM CECÍLIA.
A novela encerra seu segundo capítulo ao som de "Heart Of Glass - Blondie" (tema de abertura).